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AS LIÇÕES VOCACIONAIS DO SANTO ROSÁRIO

13/05/2005
Pe.Gaspar S. C. Pelegrini

Mistérios Gozosos.

Primeiro Mistério Gozoso: A Anunciação.

Nosso Senhor tem para cada um de nós uma missão, um plano.
A missão de Nossa Senhora foi ser a Mãe de Deus, a co-redentora, e, depois, a Medianeira de todas as graças.
Para que Nossa Senhora conhecesse a vontade de Deus, o Senhor envia-lhe um Anjo, que vai comunicar-lhe qual é essa vontade e como ela vai se realizar.
Nossa Senhora ouve atentamente, procura conhecer o modo como vai se dar este mistério, para que possa cumpri-lo com fidelidade.
O anjo, depois de dar-lhe a mensagem de Deus, antes de se retirar, espera a resposta de Maria Santíssima. Deus também, antes de executar seus planos espera uma palavra de aceitação de sua criatura.
O mistério da Encanação com tudo o que ele encerra e tudo o que dele decorre, vai depender de uma palavra de Nossa Senhora, de sua aceitação.
Nossa Senhora sabia bem o que significava ser Mãe de Deus. Ela sabia que o Salvador seria um sofredor e que a Mãe do Salvador teria que estar disposta a entregar seu Filho à morte.
Nossa Senhora, porque meditava nas Escrituras, sabia tudo o que encerrava a vocação a que Deus a estava chamando.
E ela respondeu positivamente à vontade de Deus. E o Verbo de Deus se fez carne, e habitou entre nós.
Quanta coisa vai acontecer agora na vida de Nossa Senhora, na história da humanidade! Quantos favores receberão agora os homens porque Nossa Senhora aceitou os planos de Deus.
A Redenção, os sacramentos, a Igreja, enfim todos os benefícios da nova Lei, começaram na Encarnação. E a Encarnação se deu, porque Nossa Senhora aceitou, quis cumprir a missão que Deus lhe tinha reservado desde toda a eternidade.
Na vocação de cada um de nós, dá-se também algo semelhante.
Nosso Senhor não manda, é claro, um anjo para nos avisar, mas nos dá vários sinais, através dos quais podemos conhecer a sua vontade, a nossa vocação.
Através de algum sacerdote, ou de algum escrito, ou de muitos outros modos, nós vamos conhecendo tudo o que encerra nossa vocação: Entrega total a Deus, renúncia às coisas do mundo, aos prazeres, mesmo lícitos do matrimônio, dedicação pela salvação das almas, vida de sacrifício, mas também configuração com Nosso Senhor pela ordenação, poder de perdoar os pecados, de celebrar a Santa Missa, etc.
Nosso Senhor nos manifesta tudo isso. Restará agora a nós responder sim ou não aos planos de Deus.
Se seguirmos nosso egoísmo, nossa covardia, talvez queiramos dizer "não" à vontade de Deus. E então poderemos privar a muitas almas da graça, de que seremos canais, poderemos até mesmo comprometer a salvação de muitas almas.
O grande fruto vocacional deste Primeiro mistério gozoso deve ser, pois, suplicar a Nosso Senhor a graça de sabermos dizer a "sim" à vontade de Deus, de vencermos nosso medo, nosso egoísmo. Peçamos esta graça não só para nós, mas por todos aqueles que ainda não deram sua resposta ao chamado de Deus, para que todos respondam com generosidade.

Segundo Mistério gozoso: A visita de Nossa Senhora a Santa Isabel.

Nossa Senhora fica sabendo por meio de S. Gabriel que sua prima, Santa Isabel, que era estéril, ia ter um filho. Movida sempre pelo Espírito Santo, Maria Santíssima dirige-se imediatamente para a casa de Santa Isabel para servi-la.

O maior serviço que fez nossa Senhora à sua prima e ao menino que dela ia nascer, foi levar-lhes Nosso Senhor. Santa Isabel exulta de alegria recebendo semelhante visita da "mãe de meu Senhor", como ela diz. S. João Batista, ainda no seio de sua mãe é santificado e estremece, exulta de júbilo pela presença de Jesus.

Eis a missão do Padre: levar Jesus às almas, para purificá-las e para santificá-las cada vez mais.

Notemos que Nosso Senhor poderia, de Nazaré mesmo, purificar S. João Batista. Ou poderia ir até João, por si mesmo. Mas não. Ele quis servir-se de um meio, de um instrumento, que foi Nossa Senhora.

É assim que Ele age ainda hoje; não diretamente, mas através de instrumentos que Ele mesmo escolhe.

Jesus deseja levar sua graça purificadora e santificante a muitas almas. Ele quer ir a muitos corações. Para isso, ele se serve dos sacerdotes. Para isso ele suscita muitas vocações, proporcionadas ao número de almas que precisam de sua visita.

Lições vocacionais deste mistério.

1- Como é grande a missão do padre.

Fazer Jesus chegar às almas. Jesus se submete, de certo modo, à vontade do padre. Se o padre não tem zelo, não tem interesse pelas almas, e não quer levar-lhes Jesus, pela confissão, pela comunhão, pela pregação, pelo exemplo, Jesus não vai, fica esperando pelo padre que o leve.

Jovens, que desejam ser sacerdotes, peçam muito ao Senhor a graça de serem padres zelosos, dispostos a levar uma vida de sacrifício e renúncia pelo bem das almas. Lembrem-se sempre: não há nada que entristece tanto a Deus como nossa covardia.

2- Como o padre deve ser cuidadoso em levar Jesus às almas e não levar a si mesmo ou seus próprios interesses!

O padre deve também tomar grande cuidado para não afastar as almas de Jesus, com algum mau exemplo, com uma vida fria, tíbia. Escandaliza muito ver um padre que não tem amor pelo seu sacerdócio, e evidentemente não tem amor a Nosso Senhor e às almas. Quantas almas já se afastaram da prática da religião por verem o comportamento pouco edificante de um sacerdote, ou por ouvirem dos lábios de ministros de Cristo, coisas que não condizem com tão alta dignidade.

3- Quantos padres deveríamos ter hoje no mundo trabalhando pelo Reino do céu!

Vivemos uma grande escassez de vocações. Mas o que estará acontecendo? Jesus não estará mais enviando vocações? Não é isso. O problema é que muitos dos que Jesus escolhe, não correspondem ao seu chamado. Muitos que deveriam ser sacerdotes, não o são. E por causa disso muitas almas ficam sem Nosso Senhor, sem conhecê-lo, sem sua graça, sem seu amor. Quando estes jovens comparecerem diante de Nosso Senhor, eles terão que lhe dar contas das almas que lhes seriam confiadas. E como se arrependerão naquele momento de seu egoísmo, seu comodismo, sua covardia, sua falta de interesse pela causa de Deus.

Rezemos, pois, para que sempre tenhamos sacerdotes dispostos a levar Nosso Senhor às almas. E quem for escolhido por Nosso Senhor, por favor, por amor às almas, não seja infiel a esta escolha.

Terceiro mistério gozoso: O nascimento de Jesus em Belém.

Na pobre gruta de Belém, no silêncio da noite, nasce o Salvador do mundo.

Jesus que já estava nesta terra, pois vivia no seio de Nossa Senhora, aparece agora aos olhos dos homens.

Quanta alegria, e quanta mudança traz este nascimento!

Os anjos descem do céu para adorar a Deus feito homem. Adoram e procuram mais adoradores: para isso chamam os pastores, que cuidavam de seu rebanho naquela região.

Os Magos, guiados por uma estrela miraculosa, vêm também adorar o Menino recém-nascido.

A humanidade já pode respirar aliviada, pois já nasceu o Libertador, o Redentor, o Mediador.

Lições vocacionais deste mistério:

1- Belém continua se repetindo em nossos altares.

A missa é principal e propriamente a renovação do Sacrifico de Nosso Senhor no Calvário. Mas podemos dizer também que cada vez que o sacerdote consagra, Jesus, por assim dizer, nasce novamente. Belém se renova. E novamente os anjos descem do céu para adorá-lo. Mais uma vez, a humanidade deve elevar ao céu um hino de gratidão, pois cada missa aplica a nossas almas os méritos de Nosso Salvador.

E nesta "renovação" do mistério de Belém, o padre tem um papel essencial, e, sim, pois assim o quis Deus, um papel indispensável. É ele que torna Jesus presente. É ele que renova o nascimento de Nosso Senhor. De modo que, sem o padre, ficamos também sem Jesus. É o que dizia o Cura d’Ars, "sem o padre, os méritos e a paixão de Nosso Senhor de nada serviriam."

Por isso devemos rezar sempre mais para que Nosso Senhor nunca nos deixe sem sacerdotes.

2- Belém se renova também na confissão.

Quando uma alma, em pecado mortal vem se confessar e o padre a absolve, é Natal novamente nesse coração. Jesus nasce ali por sua graça. Os anjos voltam a contemplar naquela alma a presença da Santíssima Trindade.

Mais uma vez, como precisamos do Padre!

Mais uma vez, como é grande a missão que Nosso Senhor confia aos sacerdotes! E como deve considerar-se feliz, quem for chamado por Deus, para esta missão.

3- Os magos nos ensinam a responder com generosidade ao chamado de Deus.

Através do sinal que Deus lhes deu (a estrela) os magos reconhecem a vontade de Deus e imediatamente seguem o chamado do Céu. Não medem distâncias, sofrimentos, dificuldades, incômodos. Não se deixam abater pelo desânimo, pelo medo, pela incerteza, pela vergonha...

Eis como devemos corresponder ao apelo de Nosso Senhor.

Deus também põe em nosso caminho sinais pelos quais podemos conhecer sua vontade. São as qualidades da vocação, é a voz de nosso confessor, de nosso diretor espiritual, etc.

E nós, como respondemos a este apelo? Como recebemos estes sinais?

Infelizmente, quantos jovens, depois de verem os sinais múltiplos que Nosso Senhor lhes dá para que possam conhecer sua vocação e segui-la com generosidade e confiança, levados pelo medo do sacrifício, pela pena de terem que renunciar a certas amizades, pela preguiça de terem que começar uma vida mais séria, de mais estudo, de mais responsabilidade, fazem o contrário dos magos, continuam sua vida como se nada estivesse acontecendo. E assim, colocando em risco a própria salvação e a de muitas almas, eles permanecem na inércia criminosa de que tantas vezes é vítima a juventude moderna. E Jesus não nasce mais em nossos altares nem em nossos corações, porque falta a pessoa indispensável, querida por Deus para que se dê este nascimento. Falta o padre, e falta porque faltou generosidade ao jovem. Faltou-lhe mais amor a Nosso Senhor. Faltou-lhe espírito de sacrifício.

Rezemos para que Nosso Senhor suscite muitos jovens generosos, que estejam dispostos a tudo para cumprir a vontade de Deus. E assim nossos altares serão sempre Belém, as almas estarão sempre com o espírito do natal, ou seja, sobrenaturalmente felizes por terem Jesus em seus corações.

Quarto Mistério: Apresentação de Jesus no Templo.

Conforme mandava a Lei, Jesus foi apresentado ao Senhor no templo. Jesus não tinha necessidade, nem devia ser apresentado no Templo, ser oferecido a Deus. Mas Deus quis que assim se fizesse para que nos servisse de ensinamento: devemos cumprir sempre aquilo Deus nos ordena.

Lições vocacionais deste mistério.

Jesus sendo apresentado no Templo é um modelo perfeito do que deve fazer quem é chamado por Deus para o Sacerdócio.

Nós podemos olhar a vocação da parte de Deus e de nossa parte.

Da parte de Deus, a vocação é uma escolha, um chamado, uma missão.

Deus, em seus desígnios cheios de misericórdia, desde toda a eternidade, como ele mesmo o diz, escolheu a tal jovem, para uma missão especial, para ser o continuador da obra de Seu Filho. Ao nascer, crescer, desenvolver este jovem, Deus sempre o olhou com complacência, pois, mais do que na alma do simples fiel, Deus vê na alma desse jovem a Imagem de Seu Filho, em quem Ele pôs toda a sua complacência.

Quando chega a plenitude do tempo para esse jovem, Nosso Senhor vai chamá-lo, vai manifestar-lhe esta escolha. E não vai fazê-lo, ao menos em geral não o faz, de um modo sensível. Deus vai mostrar-lhe que ele tem, ou pode ter, todos os dotes necessários aos sacerdotes. Por mil modos, Deus vai fazê-lo ver quanto o mundo precisa de padres, e que ele pode ser um; vai mostrar-lhe também, que da sua correspondência ou não, vai depender sua própria salvação e a de muita gente. Enfim, através de vários acontecimentos, de várias pessoas, Deus mostrará para o jovem, que está sendo chamado por Deus.

É agora que entra a vocação vista de nossa parte.

Se da parte de Deus, a vocação é uma escolha, da parte do jovem será uma doação. Se da parte de Deus é um chamado, da parte do jovem será uma correspondência.

Neste mistério Jesus nos ensina como devemos acatar a escolha de Deus, doando-nos, consagrando-nos, apresentando-nos a Deus, com tudo o que temos e somos, dispostos ao que Sua Divina Majestade determinar. "Eis-me aqui Senhor..."

Mas deve ser uma doação por amor, pois que foi por amor que Deus nos escolheu. Doação que, portanto, não pode ser medíocre, forçada, de má vontade. Pode haver temor, dúvida, repugnância da natureza rebelde, mas tudo isso será superado pela graça divina, se formos dóceis à sua ação.

Deve ser uma doação total, doação de nossa alma, com todas as suas faculdades, todos os seus afetos; doação de nosso corpo, com todas suas forças; doação de nossa vida com todos os nossos planos, etc.

Não podemos reservar nada para as criaturas. Se deixarmos tudo por amor de Deus, em Deus amaremos a todas as coisas. Se deixarmos a Deus por amor de alguma coisa, nosso coração não poderá amar nem nada nem ninguém, porque, dado que Deus nos criou para si, se não vivermos para Ele, nosso coração nunca terá verdadeiro repouso em seus afetos. Pode acontecer até que o jovem diga "não" a Deu e pense que ama as criaturas, ou a uma única pessoa. Em realidade, ele estaria sendo escravo de suas próprias paixões. Não se trata de verdadeiro amor.

Ao rezarmos o quarto mistério gozoso do Rosário, peçamos muito a Nossa Senhora que faça com que os jovens sejam generosos para com Deus.

Que a escolha que Deus fez desde toda a eternidade não fique em vão, mas antes seja correspondida por uma generosa e total doação de si mesmo ao Pai Eterno, para a glória de Deus e salvação da alma dos próprios escolhidos e de muitas almas.

Quinto Mistério Gozoso:A perda e o encontro de Jesus no Templo.

Jesus vai com seus pais a Jerusalém para uma festa dos Judeus.

Terminada a festa, ele deixa-se ficar no templo. Nossa Senhora e S. José o procuram por toda parte. Finalmente, depois de três dias de busca, o encontram no Templo conversando com os Doutores da Lei que ficaram maravilhados com o ele lhes dizia.

Nossa Senhora pergunta a seu Filho por que aquele procedimento. Jesus responde respeitosamente a Nossa Senhora, lembrando-lhe sua missão, sua ocupação: "Não sabíeis que devo ocupar-me das coisas de meu Pai?"

Em seguida Jesus regressa a Nazaré onde ficará por trinta anos submetido a Nossa Senhora e S. José.

Quantas qualidades sacerdotais vemos em Jesus neste mistério!

1- Amor ao lugar Sagrado: Jesus ficou no Templo, em um lugar santo, ensinando coisas santas. Nós também devemos gostar de estar no Templo, na igreja, para conversar, não com um simples doutor, mas com o próprio Jesus, o Mestre dos Mestres. Devemos ter amor pelas coisas sagradas.

2- Perfeito cumprimento da Vontade de Deus: "Nas coisas de meu Pai": Jesus dirigiu estas palavras a Nossa Senhora e a S. José, as criaturas mais santas, que nem fizeram a pergunta em tom de reprimenda mas de queixa. Nós, quantas vezes poderíamos usar desta frase para afastar os inimigos de nossa vocação.

Diante da tentação de seguir muito as coisas do mundo, podemos repelir este convite com as palavras de Jesus: "Não sabíeis que devo ocupar-me das coisas de meu Pai?"

Diante de algum apego, algum amor estranho que quiser vir tomar o lugar de Deus em nosso coração, digamos com todo fervor: "Não sabíeis que devo ocupar-me das coisas de meu Pai?"

Se alguma vez, agora e mesmo depois de padres, vier-nos a tentação de dedicar-nos a certas coisas e/ou a certos assuntos que não são próprios para nosso ministério, lembremo-nos das palavras de Nosso Senhor: "Não sabíeis que devo ocupar-me das coisas de meu Pai?"

3- Submissão humilde e obediente: É indispensável ao padre a obediência. Jesus quer que morramos à nossa vontade, ao nosso modo de pensar e agir. Quer que nós sempre ouçamos nossos superiores.

4- Dependência filial de Maria Santíssima: Jesus deixa o templo e volta para Nazaré para passar trinta anos na dependência filial de Maria Santíssima. Deus obedecendo aos homens! Imitemos a Nosso Senhor. O tempo do seminário deverá ser especialmente um tempo de conhecer melhor a Nossa Senhora e nos abandonarmos nela. Aprendamos de Jesus a viver com Maria e obedecer a esta boa Mãe que o céu nos deu.

Que Nossa Senhora nos alcance de Deus estas virtudes sacerdotais indispensáveis se quisermos produzir muitos frutos de santidade em nossa alma e em muitas almas, a todas que Deus nos confiar.



Mistérios Luminosos.

Primeiro mistério luminoso: O Batismo de Nosso Senhor, por S. João Batista.

Ao contemplarmos o Batismo de Nosso Senhor, nossos olhos se voltam para a figura de João Batista, o precursor do Messias. João fora escolhido por Deus para pregar a penitência, a mudança de vida, preparando assim os corações para a vinda do Salvador. Temos muitas lições vocacionais e sacerdotais na pessoa e na Missão de João.

1- A Missão do Padre é como a do Batista: "Preparar os caminhos do Senhor". Dispor os corações para receberem a graça. Encaminhar as almas para Nosso Senhor. O Padre pode ter a tentação de prender as almas a si, de fazer um apostolado colocando-se por centro. Devemos fazer como o Batista: a todas as almas que nos procurarem ou que nos forem confiadas, devemos mostrar-lhes Jesus, dizendo com o Santo Precursor: "Eis o Cordeiro de Deus".

2- Humildade: "Não sou digno de desatar-lhe a correia das sandálias". O jovem que percebe em si o chamado de Deus e o padre em quem este chamado já foi correspondido, deve lembrar-se sempre de que sua vocação vem da pura bondade de Deus. Nós não a merecemos. Nós em realidade não somos, como de si dizia S. João Batista, dignos de desatar as correias do calçado de Cristo. E nós vamos tocá-lo, vamos ser seus representantes, vamos falar em seu nome. Não merecemos tal graça. Rezemos para que nunca sejamos infiéis a tão grandes benefícios.
Dizia também S. João Batista: "É preciso que Ele cresça e que eu diminua".
Em todas as nossas ações, primeiro como leigos, em seguida como seminaristas, depois como padres, procuremos evitar tudo aquilo que possa chamar a atenção dos outros sobre nós. Evitemos direcionar para nós os holofotes.
Que nunca digam que nós estamos crescendo na estima do povo, mas sim que as almas a nós confiadas cada vez se apegam mais a Nosso Senhor e à sua Igreja.
Esta difícil virtude da humildade tem que ser trabalhada desde agora. Se quisermos futuramente ser bons ministros do Senhor, servos seus e não usurpadores de sua honra, comecemos desde agora a exercitar-nos na humildade.

3- Fortaleza: "João não era um caniço agitado pelo vento", diz Nosso Senhor.
O padre também não o pode ser de modo algum. Dizia o poeta: "Um fraco rei faz fraca a forte gente". Um padre fraco..., um padre condescendente... um padre acomodado... leva as almas a ele confiadas à ruína.
Para um jovem que estuda ou procura amadurecer a própria vocação, a moleza faz um grande mal. Ela pode impedi-lo de tomar certas decisões necessárias para a fidelidade à vocação. Ela pode levá-lo a se acomodar em sua vida espiritual e não avançar; e dizem os santos, "na vida espiritual, quem não avança retrocede".

4- Austeridade: João não é um homem que se veste como roupas finas e nem um homem que se alimenta de manjares de delicados.
Um grande impedimento para as vocações hoje é o comodismo, a falta de espírito de sacrifício. Ir para o seminário, abraçar o sacerdócio, significa ter que começar uma "vida dura", significa ter que estudar com afinco, trabalhar muito, dormir menos, futuramente sentar-se longas horas no confessionário, sentir calor, etc. E quem está acostumado a roupas finas e lautos banquetes, fica horrorizado diante destas dificuldades. Mas Nosso Senhor elogiou a S. João Batista exatamente por esta sua austeridade. Ele mesmo quis levar uma vida muito austera sem lugar certo para dormir, sem ter, às vezes o que comer, etc.
Dado que nossa missão é tão semelhante á de São João Batista, imitemo-lo em sua humildade, em sua fortaleza, em sua vida de penitência, em sua austeridade, e assim prepararemos bem as almas para Deus Nosso Senhor e um dia teremos a grande alegria de louvá-lo no céu por toda a eternidade, com muitas almas que levaremos para lá com nosso exemplo e com nossos ensinamentos.

Segundo mistério luminoso: O milagre de Jesus nas Bodas de Caná.

Jesus vai juntamente com sua mãe e seus discípulos a uma festa de casamento.
Durante a festa Nossa Senhora, mãe solícita percebe que vai faltar o vinho, elemento essencial numa festa oriental. Ela então comunica a Jesus este incidente. Jesus, por atenção à Sua Mãe, adianta a hora de seus milagres. E transforma a água em vinho, livrando assim os esposos de um grande transtorno, e fortalecendo, por este fato, a fé de seus discípulos.

Lições vocacionais deste mistério.

1- Como Jesus santificou aquela festa, assim também o padre deve santificar os lugares aonde ele vai.

O padre e quem deseja sê-lo, devem lembrar-se sempre do seguinte princípio: O padre não tem horas de sacerdócio, o como o empregado as tem de escritório. Ele é padre sempre: quando reza, quando fala, quando caminha pelas ruas, e também quando brinca. Sempre padre. E se ele é sempre padre, ele deve sempre se comportar como padre. Portanto nunca esconder seu sacerdócio (que bem que faz a batina!). Nunca freqüentar lugares impróprios a um sacerdote.

2- A presença de Jesus santifica aquela festa.

Quando o padre visita uma casa, ele deve deixar ali a lembrança de Deus; o pensamento de que um ministro de Nosso Senhor esteve ali. E nunca deve deixar a idéia de que esteve ali uma pessoa do mundo, uma pessoa que não fala de Deus, que não leva ninguém a Deus. Uma pessoa que só deixa lembranças negativas, quando não deixa nenhuma lembrança.

3- Jesus vai para fazer o bem, não para se divertir, etc.
Eis outro ponto fundamental na vocação. Saber servir. Saber renunciar ao próprio conforto para atender às necessidades do próximo.
O padre deve estar disposto a renunciar ao sono, para acudir às almas. Deve saber dizer não à sua curiosidade para ter tempo de cumprir seus deveres. O padre não deve deixar de celebrar só porque está um pouco cansado. Não deve deixar a pregação só porque não sente vontade de pregar. O padre não deve faltar a nenhum de seus deveres só por motivo de diversão, etc.
E o padre deve fazer o bem, por amor a Deus e às almas, e não para sua própria estima. Jesus dizia: "Eu não procuro a minha glória". O padre dirá a mesma coisa: eu não procuro a minha glória, eu não procuro o meu conforto, não procuro o meu próprio bem estar, etc.
Quantos sacrifícios fizeram os santos pelo bem das almas! São João Maria Vianney passava até 16 horas por dia no confessionário. Santo Afonso fez voto de não perder tempo. Quantos santos chegaram a contrair doenças em sua dedicação às almas!

4- Como Jesus transformou a água em vinho, o padre deve transformar as almas.

Que grande poder Deus depositou nas mãos do padre! Ele faz de um pagão, um cristão; de um escravo do demônio, um filho de Deus; de um pecador, um justo; de um pouco de pão e vinho ele faz um Deus. Como é grande a missão do padre. E como o padre deve amar esta sua missão. É incompreensível um padre que não tem amor a seu ministério, um padre que não gosta de administrar os sacramentos, de celebrar a Santa Missa, etc. Amor pela santa Confissão... Ter horários disponíveis ao povo; e ter paciência de ouvir todas as confissões.

5- Nosso grande auxílio na vida sacerdotal deve ser Nossa Senhora.

A Virgem Maria quer fazer o bem às almas, e muito mais aos sacerdotes. O milagre das bodas de Caná nos ensina o poder que ela tem junto ao Coração de Jesus. Portanto, em nossas necessidades agora durante nossa formação e depois em nosso ministério, recorramos sempre à mediação de Nossa Senhora.
Que Ela nos faça bons sacerdotes, sacerdotes segundo o coração de seu divino filho.

Terceiro Mistério Luminoso: Jesus, em sua pregação, anuncia o Reino de Deus e convida à conversão.

Depois de 30 anos de vida oculta, na submissão a S. José e Nossa Senhora, depois de 40 dias de jejum e oração, no deserto, Jesus vai começar a sua pregação. E em sua pregação ele vai anunciar o seu reino, o Reino de Deus, e como condição indispensável para pertencer a este Reino, Jesus convida à conversão.
O Reino de Deus é a Igreja. O Reino de Deus é a vida na graça divina. E é isto que Jesus prega: o Reino dos Céus. Em suas parábolas, ocupa lugar de destaque o Reino dos Céus. Jesus multiplicava as comparações e símbolos para revelar-nos o Reino. E no sermão da Montanha, que resume todo o Evangelho, toda a sua pregação, Jesus diz: "Buscai primeiro o Reino de Deus e sua justiça e tudo o mais vos será dado por acréscimo".

Lições vocacionais deste mistério.

1- "Buscai o primeiro o reino de Deus!"

A procura da vocação a que Deus nos chama, é a busca do Reino de Deus, é a busca do lugar, da função que Deus nos reserva em seu Reino.
O vocacionado, o seminarista e o padre, mais ainda que os leigos devem ter sempre esta preocupação: buscar o Reino de Deus.
Buscar o reino de Deus, pelos sacramentos, que nos fazem crescer mais e mais na graça de Deus, que é a vida deste reino.
Buscar o reino de Deus pela oração, pelo recolhimento: "O Reino de Deus está dentro de Vós". O sacerdote, e quem deseja e se prepara para sê-lo, devem ser almas de oração. Como diz Dom Chautard, em seu célebre livro sobre a vida interior: "A alma de todo apostolado é a vida interior". De modo que se o padre ou o vocacionado não tem vida interior, vida de oração, de união com Deus, será como se seu apostolado não tivesse alma. Esta vida de oração cresce sobretudo com a meditação cotidiana, por isto dizem os autores de Espiritualidade: "O padre vale o que vale a sua meditação". Se é assim, um padre, ou um vocacionado que não medita, não tem valor.
Devemos buscar ainda o reino de Deus pela prática das virtudes: "O Reino do Céu é também como um comprador que procura pérolas preciosas". As virtudes são como pérolas para nossa alma: elas nos adornam, nos tornam agradáveis a Deus Nosso Senhor.
Devemos buscar o Reino de Deus pela nossa fidelidade a Deus nas pequenas coisas de cada dia: "O Reino do Céu é como uma semente de mostarda." Será pela fidelidade às pequenas coisas que seremos fiéis nas grandes. Fidelidade portanto aos nossos deveres de cada dia. Fidelidade aos nossos exercícios de piedade. Fidelidade nos pequenos atos de virtude, que mostrarão nossa delicadeza de consciência e nosso temor filial de contristar a Nosso Senhor ainda que seja em coisas pequenas.
Devemos buscar o reino de Deus pela penitência: "Se não fizerdes penitência todos perecereis".
Devemos buscar também o reino de Deus pela renuncia a nós mesmos, fazendo violência às nossas más tendências: "O Reino do Céu padece violência, e são os violentos que o arrebatam".
Esta violência que devemos fazer para termos e pertencermos ao Reino do Céu é exatamente a condição indispensável que Jesus nos põe para o seguirmos: a conversão: "Convertei-vos, pois está próximo de Vós o Reino de Deus".
Converter-se significa voltar-se para. Nossa conversão é pois nossa volta contínua, e cada vez mais intensa e mais pura para as coisas de Deus.

Nossa conversão será então o combate a tudo aquilo que nos afasta ou nos exclui do Reino de Deus. Principalmente será a nossa luta contra o pecado que é grande inimigo deste Reino. Combate, portanto, enérgico e sem trégua, ao pecado mortal, que destrói em nós a graça de Deus, e combate ao pecado venial que diminui o fervor de nossa caridade.
Peçamos a Nossa Senhora, que sempre buscou o reino de Deus e sua justiça, que ela nos ensine a amar e a buscar sempre este Reino, que começa neste mundo pela graça e termina no outro pela glória.

Quarto Mistério Luminoso: A Transfiguração de Jesus.

Jesus, depois de muito pregar, se retira com três de seus discípulos para rezar.
Enquanto rezavam, eis que Jesus se levanta, começa a transfigurar-se diante deles. Seu rosto e suas vestes começam a ficar resplandecentes. E apareceram falando com ele sobre sua paixão, Moisés e Elias.
S. Pedro extasiado diante daquela visão exclamou: "Senhor, como é bom estarmos aqui!" Mas, como aquela hora não era para exclamações, mas sim para a contemplação, não de falar, mas de ouvir, o Pai eterno fez ouvir sua voz dizendo: "Este é o meu filho muito amado, em quem pus toda minha complacência, ouvi-o".
Diante desta voz, os Apóstolos se prostraram com o rosto em terra. Um pouco depois, Jesus se aproximou deles e os tranqüilizou dizendo que não tivessem medo.

Lições vocacionais sobre este mistério.

1- O Seminário deve ser para nós como o Tabor.

No Tabor, Jesus se transfigurou, ou, seja, deixou ver um pouco de sua glória, glória resultante de sua divindade, da união hipostática, da visão beatífica que possuía sua natureza humana.
Pois bem, no Seminário, é assim que Jesus vai se revelar ao seminarista, através de seus estudos. Sobretudo os anos de Teologia, serão anos para conhecer mais a Nosso Senhor. Conhecê-lo em seu interior.
A beleza de Jesus no Tabor foi tanta, que S. Pedro queria ficar ali: "Senhor, como é estarmos aqui! Se quiserdes faremos aqui três tendas, uma para vós, outra para Moisés e outra para Elias".
Assim deve ser o Seminário para o seminarista: um lugar onde ele gosta de estar. O Seminário, como casa de formação sacerdotal, não é uma universidade, nem muito menos uma república. É um santuário onde se recolhem os prediletos de Nosso Senhor, seus futuros sacerdotes. Portanto, não está bem que o seminarista sinta sempre uma necessidade de estar saindo, passeando, procurando diversões, etc. O seminarista deve amar estar no Seminário, pela vida recolhida e de união com Deus que nele se leva. Como isto vai repercutir depois na vida do padre! Um padre que aprendeu a gostar de estar no Seminário, no silêncio, na capela, saberá preencher a solidão que humanamente falando, o padre tem. O padre que aprendeu a estar na companhia de Jesus Sacramentado, saberá buscar nesta companhia seu maior auxílio no ministério sacerdotal.
O seminário deve ser o lugar de nossa própria "transfiguração", pela graça e pela prática das virtudes. Devemos de tal forma imitar a Nosso Senhor na prática da virtude e pela vida de íntima união com ele, que Deus Pai, ao olhar para nós, possa também dizer: "Este é meu filho muito amado."
Sim, temos que nos configurar com Jesus, não só pela graça, mas também pela nossa vida quotidiana, pela nossa humildade, nossa mansidão, nossa pureza a toda prova, enfim por todas as virtudes.
Tudo isto mostra a importância dos anos do Seminário, dos longos anos de Seminário. É tanta coisa a fazer, que precisamos de muitos anos...

2- Devemos saber ouvir a Jesus.

"Este é meu Filho muito amado... ouvi-o."
Jesus nos fala de tantos modos e em tantas circunstâncias!
Devemos ouvir a Jesus, convidando-nos a segui-lo: "Vem e segue-me." Não devemos ter medo de ouvir seu chamado. As dificuldades, as provações não devem nunca fazer-nos desanimar de segui-lo.
Devemos ouvir a Nosso Senhor através de sua palavra no Evangelho. O que ele disse a seus conterrâneos foi dito também para nós. O Evangelho é sempre atual.
Especialmente para nós, a quem Nosso Senhor chama para seus amigos íntimos, seus representantes, para nós, repito, o Evangelho deve ser o livro de todas as horas. Devemos conhecer Jesus através de seu coração. Vemos seu coração, seus sentimentos, seus desejos, através de suas ações e de suas palavras, suas pregações. E o Evangelho é onde nós encontramos estes tesouros. O Evangelho deve ser nossa cartilha vocacional.
Devemos também ouvir a Jesus, através de nossos superiores. Santa Teresinha, referindo-se à Madre Superiora do Carmelo, dizia que ela era o seu "Jesus visível". E para nós também. E como agrada a Deus a virtude da obediência! Jesus fazia da obediência ao Pai, seu alimento.
Ouçamos também a Nosso Senhor no Santíssimo Sacramento. Lá ele nos fala, embora sem ruído de palavras. Leiamos pausadamente o Evangelho diante do Santíssimo Sacramento, e seremos tão felizes quanto os Apóstolos, ouvindo a Nosso Senhor.
Que Nossa Senhora, tão atenta em ouvir a Seu Filho e meditar em seu coração tudo o que via e ouvia, alcance para todos nós um grande recolhimento interior, condição indispensável para ouvir a Nosso Senhor.
Que ela nos ajude a ouvir com atenção e a praticar com prontidão o que ele nos disser.

Quinto luminoso: A Instituição da Santíssima Eucaristia.

Na véspera de sua paixão, Jesus quis deixar-nos por testamento um dom preciosíssimo, o Dom de si mesmo na Santíssima Eucaristia.
Deixou-se e deu poder aos Apóstolos de continuarem a fazê-lo permanecer conosco. Instituiu então o sacerdócio: "Fazei isto em memória de mim".
Quantas lições vocacionais neste mistério:

1- É na última ceia, no dia da instituição da Eucaristia que Jesus vai demonstrar uma predileção pelos seus apóstolos: "já não vos chamo servos, mas amigos."
Jesus se sente feliz ao instituir estes dois grandes sacramentos: a Eucaristia e o Sacerdócio. E, por ser Deus, ele vê o que se realiza na alma de seus apóstolos neste momento, ou melhor Ele sabe bem o que causa neles nesta hora. Por isso os chama de amigos. Agora os Apóstolos são seus íntimos.
É assim que Jesus quer nos tratar a nós a quem ele escolheu para o sacerdócio. Se ele quer tratar-nos como amigos, é preciso que nós também o tratemos assim. Senão, seríamos muito ingratos. O amigo faz de tudo para não ofender nem entristecer seu amigo. Como é que fazemos com Nosso Senhor?
Que tristeza! Quantas vezes Jesus recebe os piores ultrajes de seus amigos! Um padre que abandona seu sacerdócio, seduzido por algum outro afeto, trocando a Deus por uma mísera criatura. Um seminarista que não faz o mínimo esforço para evitar o pecado mortal e o pecado venial deliberado. Um seminarista que não é fiel à castidade. Um jovem que se sente chamado por Deus e não faz caso deste chamado, e leva uma vida como qualquer outro jovem que ainda não encontrou um destino, uma razão, um ideal de vida.

2- É na última ceia que Jesus nos entrega também o mandamento novo, o seu mandamento: de amarmos uns aos outros como ele mesmo nos amou. Que regra de ouro para nosso agir: amar o próximo como Jesus nos amou: compadecendo, perdoando, velando, ajudando, suportando... e quantos outros verbos poderíamos colocar nesta lista!

3- Amor à Eucaristia.

Se todos os fiéis devem ter um grande amor à Eucaristia,muito mais o padre, o seminarista, e o vocacionado. Devemos fazer da Eucaristia a nossa delícia. Existe uma hora santa muito antiga pelas vocações que diz assim: "Senhor, dai-nos seminaristas piedosos, que vos amem apaixonadamente que vos fitem longamente no Sacrário".
O Regulamento Seminário da Administração Apostólica ao falar da devoção Eucarística do Seminarista diz: "Esforcem-se os alunos por adquirirem um amor cada vez maior para com o Santíssimo Sacramento da Eucaristia. Sejam assíduos freqüentadores do Sacrário. Aprendam a buscar aí a fonte de suas mais vivas alegrias, a consolação em seus momentos de dificuldade, o Amigo e Companheiro de todas as horas, e assim se preparem para serem depois, apóstolos inflamados do Santíssimo Sacramento".
E o jovem que ainda está discernindo sua vocação saiba que não há melhor devoção, melhor meio para conhecer e abraçar com generosidade a vocação que a Santíssima Eucaristia.

4- O dia da instituição da Eucaristia e do sacerdócio foi também o dia apostasia, a apostasia de Judas.

Portanto,vendo um Apóstolo fazer-se traidor, aprendamos na meditação da Santíssima Eucaristia, a pedir sempre nossa perseverança, nossa fidelidade à nossa vocação.
Que Deus Nosso Senhor nos dê a graça de amar de todo nosso coração (apaixonadamente) a Jesus Sacramentado, e a graça de vivermos sempre de modo digno da vocação a que fomos chamados.

 

Mistérios Dolorosos.

Primeiro Mistério: A Agonia de Nosso Senhor no Jardim das Oliveiras.

A Agonia de Jesus é um mistério de dor, de sangue, de medo, de abandono, de traição, mas também de mansidão, de resignação, de perdão...

A Agonia de Jesus é sobretudo um mistério de sofrimento moral. E que o mais lhe causa este sofrimento é o pouco caso que muitos farão de sua Paixão. "Quae utilitas in sanguine meo?", exclama ele por boca do Salmista: "Qual será a utilidade de meu sangue?"

Sim, o sangue de Jesus, para muitas pessoas, foi e será inútil.

Foi inútil para Judas, que não quis "lavar naquele Sangue o seu pecado."

Foi inútil para a salvação de grande parte daquele povo que o pediu sobre suas cabeças e as de seus filhos, não como salvação, mas como deicídio assumido.

Será inútil para muitas almas que viverão e, infelizmente, morrerão mergulhadas no pecado, não fazendo o mínimo caso do Sangue de Jesus. E entre estas almas poderá haver muitos amigos de Jesus, muitas almas consagradas, muitos vocacionados...

Portanto sobrou motivo para que naquela noite sinistra, Jesus entrasse em agonia.

Lições vocacionais deste mistério:

1- Que não fique inútil o sangue de Jesus.

Este mistério nos explica por que precisamos tanto do padre: para que não fique sem fruto o sangue de Jesus. O padre é o continuador da Obra de Jesus. Jesus depositou nas mãos de seus ministros o sangue que ele começou a derramar no Getsêmani e consumou no Calvário. Por isso precisamos tanto do Padre. Por isso é tão sério o problema da correspondência à vocação. Um jovem que não corresponde à sua vocação, está privando a muitas almas do sangue de Jesus, está inutilizando para muitos, os méritos de nosso Salvador.

2- Que missão sublime a do Padre: derramar nas almas este Sangue preciosíssimo! Fazer fecundo este sangue. Através dos sacramentos de que é ministro, o padre leva até as almas o Sangue do Cordeiro que foi imolado. No Batismo, ele concede à alma, juntamente com a destruição do pecado, a filiação divina, a graça santificante, as virtudes, os dons do Espírito Santo, etc.

Na confissão, o padre faz à alma penitente ajoelhada a seus pés o que Jesus fez ao Bom Ladrão ao pé da Cruz: perdoa-lhe os pecados e promete-lhe o céu. E a alma que foi ao confessionário espiritualmente se arrastando, volta de lá cheia de vida sobrenatural, purificada, pois foi lavada no sangue de Jesus, através do ministério do Sacerdote.

Na Santa Missa, o padre derrama sobre toda a Igreja, incluindo as pobres almas do Purgatório o Sangue Redentor de nosso Deus, e na comunhão ele nos alimenta com este mesmo sangue. Oh! Que faríamos sem o padre?! Com razão dizia São João Maria Vianney: "Sem o padre de nada nos valeriam o sangue e a Paixão de Jesus."

Que a contemplação do que se encerra na Agonia de Jesus seja para nós um estímulo para combatermos energicamente o pecado, e sermos fiéis à nossa vocação à custa de qualquer sacrifício, que preciso for.

Que Nossa Senhora nos faça, por nossa fidelidade à vocação que Deus nos deu, ministros fiéis do Sangue de seu divino Filho.

Segundo Mistério doloroso: A Flagelação de Jesus.

Se o mistério da Agonia do Getsêmani foi o mistério dos sofrimentos morais, a Flagelação é o mistério da dor corporal.

Jesus, atado a uma coluna, é barbaramente flagelado, ficando seu corpo todo ferido, uma chaga viva.

O silêncio é sua resposta aos soldados que trituram sua Carne Sacrossanta.

O Coração de Jesus, naquele momento, contempla especialmente todos os pecados que seriam cometidos contra a castidade. Ele pensa em todos, pensa em cada um de nós. Ele nos vê pecando, e chora, e reza, e sofre e derrama seu sangue por nós, para nos perdoar e nos curar.

A impureza foi o terrível chicote que flagelou nosso Redentor amado...

Lições vocacionais deste mistério.

1- Jesus nos quer puros. Todos nós temos que guardar a castidade, em nossos atos, olhares, desejos, pensamentos, etc. Os pecados contra a castidade, quando feitos voluntária e advertidamente, são pecados mortais, que ofendem, portanto, gravemente a Deus. Mas se Deus exige de todos a guarda da castidade, muito mais o exige de seus escolhidos, dos vocacionados, dos seminaristas, dos sacerdotes, dos religiosos de todas as almas consagradas.

Que a flagelação de Nosso Senhor nos cumule de vergonha por nossas faltas e desperte em nosso coração um desejo eficaz de evitar o pecado impuro e tudo o que a ele conduz.

2- Como sacerdotes, devemos pregar a castidade e combater a impureza.

Se o mundo de hoje, com a televisão, a Internet, as revistas, os serviços de telefone, as modas, as músicas, etc. promovem e facilitam a impureza, nós devemos ser Apóstolos da Castidade.

Nosso primeiro meio de apostolado será nosso exemplo, através de uma conduta irrepreensível e acima de qualquer suspeita. Por isso evitemos tudo aquilo que escandaliza o próximo, além de ofender a Deus.

Vamos também ser apóstolos da castidade através de nossa pregação, ensinando às almas o quanto este pecado é grave e mostrando que é possível à alma viver na graça de Deus.

Seremos ainda apóstolos por nossa oração, implorando a Deus que venha em socorro de tantas almas, cercadas de todos os lados por convites para o mal.

Que a imagem de Jesus flagelado comova nosso coração de tal modo que nós não tenhamos coragem de voltar a ofender a Deus com um só pecado que seja, contra a angélica virtude da castidade.

Que Nossa Senhora, Virgem puríssima, nos ajude a sermos puros de corpo e de alma e que ela nos abençoe a todos.

Terceiro Mistério Doloroso: A Coroação de Espinhos

Depois da cruel flagelação, a humilhante coroação de Espinhos. Sendo a cabeça uma área tão sensível, fácil é imaginar a dor que sentiu Jesus. E se foi grande a dor física, mais intensa foi a dor moral que então Jesus sofreu.

A coroação de espinhos feria a honra divina de Jesus, feria sua integridade imaculada. Jesus, Deus, Salvador, Rei supremo, é tratado com um homem qualquer, como um criminoso, como um louco.

Lições vocacionais deste mistério.

Jesus nos chama para a humildade, para a humilhação.

Se todo cristão, por pertencer a Cristo pelo batismo, deve imitar ao divino modelo, muito mais o padre, o seminarista, o vocacionado.

Santo Inácio nos diz no livro dos Exercícios Espirituais, na meditação das duas bandeiras, que Jesus convoca aos seus seguidores ao caminho da pobreza, do desejo dos opróbrios, coisas estas que geram a humildade.

O Papa Paulo VI, falando da vocação a definiu assim: "A vocação hoje quer dizer renúncia, impopularidade, sacrifício. Supõe preferir a vida interior à exterior, a escolha de uma perfeição constante, em comparação de uma medíocre e sem sentido." (novembro de 1963).

Jesus não salvou a humanidade com milagres estupendos, com obras sensacionais. Não, ele nos salvou pela cruz, pela humilhação, "humilhou-se a si mesmo, feito obediente até a morte", como nos lembra o Apóstolo. Discípulos de Jesus, continuadores de sua missão salvífica, também nós, se quisermos colaborar eficazmente com Ele, temos que tomar o caminho da humildade, temos que aceitar ser chamados de loucos, temos que estar dispostos a receber dos homens coroas de espinhos, bofetadas, escárnios e até escarros, pois o discípulo não é maior que o mestre.

Mas acima de tudo isso, temos que estar dispostos a morrer para nós mesmos, a dizermos "não" ao nosso amor próprio, ao nosso egoísmo, a renunciarmos à nossa vontade própria.

Que Jesus coroado de espinhos nos conceda luz abundante para conseguirmos compreender esta ciência tão difícil para criaturas feitas de um barro tão ordinário, a ciência da humilhação, da renúncia, da impopularidade, da vida escondida, a Ciência da Cruz.

Quarto Mistério Doloroso: Jesus carregando a Cruz.

O quarto mistério nos faz acompanhar Jesus desde sua condenação à morte até o cimo do Calvário. Neste mistério está a maioria das estações da Via sacra.

Da via sacra de Jesus podemos tirar também várias lições vocacionais.

Se o padre vai se configurar com Jesus crucificado, ele também para chegar à "crucifixão" terá que percorrer também a sua via sacra.

Na condenação à morte de Jesus, o vocacionado pensará em sua morte para tudo o que se opõe à sua vocação. Morte para muitos planos que talvez já tivesse feito.

Nesta condenação à morte, o vocacionado meditará também em sua vocação, na escolha que fez Deus, destinando-o a ser sacerdote de Jesus, a ser também hóstia com Jesus.

Jesus levando sua cruz nos ensina a abraçarmos com prontidão a vontade de Deus, a seguirmos com generosidade nossa vocação, custe o que custar, doa o que doer.

As quedas de Jesus são motivo de confiança para nós, nos momentos em que nossa cruz se faz mais pesada. Como ele se levantou sempre depois de cada queda, assim devemos fazer nós depois de cada momento de fraqueza. Nunca, nunca desanimar.

Neste nosso caminho vem também em nosso encontro, como no Calvário, Nossa Senhora, para nos fortalecer, nos encorajar, nos convidar a contemplar o rosto de seu Filho que nos precedeu com sua cruz, e com tanto amor.

Também nós temos nosso Cireneu: é o próprio Jesus. Na santíssima eucaristia, sobretudo na comunhão de cada dia, nós o temos sempre a nosso lado, sustentando nossa cruz para que não caiamos, ou caiamos menos.

Neste nosso Calvário, se nós procuramos sempre ser fiéis a nosso Senhor, todos o que nos virem, como no véu da Verônica, verão a imagem de Jesus em nós.

E para nosso consolo, como aquelas santas mulheres choravam Jesus e se lamentavam e rezavam por ele, nós também temos estas almas santas que choram (pela penitência) e rezam por nós: são tantas almas contemplativas, que dedicam toda a sua vida a rezar pelos sacerdotes e pelas vocações.

Que o Senhor dos Passos no ensine a andar em suas pegadas, e um dia seremos configurados com ele pela sagrada ordenação e depois transfigurados com ele pela glória eterna do céu.

Quinto Mistério Doloroso: A crucifixão.

Enfim, chegamos ao cume do Calvário. Sim, enfim, pois foi um longo itinerário desde o Getsêmani, até aqui. Quanto sangue, mesclado com lágrimas; quanta dor, unida a tantas humilhações; quantas decepções, resultado de amigos que traem, que negam e que abandonam.

Chegou a Hora de Jesus. Nos sofrimentos anteriores, Jesus era o trigo, que estava sendo colhido, debulhado, moído, assado. Agora, é a hóstia já preparada que vai oferecida a Deus Pai.

Jesus é o cordeiro pacífico e silencioso que não abriu a sua boca e agora chega, ainda em silencio ao matadouro, onde ele imolará sua vida, por nós.

Uma meditação é muito pouco espaço para considerarmos tudo o que se passou naquela tarde, naquele monte...

Às zombarias, maltratos, humilhações dos soldados e dos judeus, Jesus responde com o perdão: Pai perdoai-lhes.

Embora num oceano de sofrimento, Jesus, não pensa em si, mas no criminoso arrependido e resignado, que lhe pede uma lembrança em seu reino: Hoje estarás comigo no paraíso.

Embora abandonado, de todos, até de seu Pai, Jesus não pensa em sim, mas se preocupa com sua Mãe, agora tão sozinha, e lhe dá por filho seu predileto: não reserva nada para si, nem sua mãe, nem seu melhor amigo.

E assim termina o drama do Calvário, e a última palavra do Verbo é de entrega como foi sua exclamação ao entrar no mundo. Vem a este mundo dizendo: Eis que venho ó Deus para fazer a Vossa Vontade. E termina sua vida entregando-se nas mãos de seu Pai: Meu Pai, em vossas mãos entrego o meu espírito. E numa atitude de submissão a seu Pai e de aceitação voluntária da morte, morre inclinando a Cabeça como quem diz "Sim!"

Lições vocacionais deste mistério:

1- O Calvário presente em cada Missa;

Sacerdotes, seminaristas, vocacionados, lembremo-nos sempre de que nossa Missa faz presente o Calvário; em nossas Missas Jesus se imola, Jesus torna presente de novo a imolação do Calvário.

Portanto que nossa atitude durante a Santa Missa, seja como a de Jesus, a de Nossa Senhora a S. João no Calvário.

O Regulamento de nosso Seminário ao falar da Santa Missa nos dá o seguinte conselho: "Na Santa Missa, assimilarão os sentimentos do Coração de Jesus durante toda Sua vida, em especial no Seu Supremo Sacrifício: caridade sem limites, zelo pela glória do Pai, obediência, abnegação, dom de si mesmo como vítima, humildade, mansidão, virtudes estas que devem ser também as do bom seminarista e do bom sacerdote". (Reg. Do Seminário da Imaculada Conceição, Cap IV, n. 86).

2- Estou preso à Cruz com Cristo, nos diz S. Paulo; Que este seja também nosso ideal. Crucificar-nos também, imolar-nos. Mas que nossa imolação não seja feita em qualquer altar, mas sim no da Cruz de Cristo, isto é, imolemo-nos unidos a Ele. E como nos imolamos? Pelo nosso voto de castidade, pelo qual renunciamos por um amor maior, a tudo o que nos oferece o matrimônio; pela nossa obediência, pela qual deixamos de lado nosso querer, para seguir somente a vontade daqueles que Deus constitui como seus representantes sobre nós; em suma, imolamo-nos pela renúncia à nossa própria vontade.

Que a Virgem santíssima, fiel imitadora de seu Divino Filho nos alcance estas disposições.



Mistérios Gloriosos.

Primeiro Mistério Glorioso: A Ressurreição de Jesus.

Depois da dor, o alívio. Depois do sofrimento, a recompensa. Depois das trevas, a luz. Depois dos desprezos e humilhações, a glorificação. Depois da morte a Ressurreição, a Vida. É o que contemplamos neste primeiro mistério glorioso...

Jesus ressuscita, mas conservando a mesma bondade de seu Coração, o mesmo amor por seus fracos apóstolos e discípulos. Por isso vai consolá-los. Tomé tarda em acreditar, e Jesus aceita que o discípulo incrédulo faça os teste que ele julga necessários. A fé volta a guiar os discípulos. Jesus, conhecendo toda a ansiedade e aflição de espírito em que se encontravam, dirige-lhes palavra cheias de bálsamo: A paz esteja convosco. A paz. Era de que mais precisavam. Abalados, escandalizados, inquietos, assustados, temerosos, pelo drama da Paixão, antes de qualquer coisa, e para poderem fazer qualquer coisa, os pobres discípulos precisavam da paz, não da paz como a dá o mundo, mas da de Jesus, a que só ele pode dar. E Ele a deu.

Em seguida, enquanto sopra sobre eles, dá-lhes com o Espírito Santo o poder de perdoar os pecados, em seu próprio nome.

Lições, vocacionais deste mistério:

1- A vida nova com Jesus.

A Ressurreição é para nós um convite a uma vida nova, renovada e reavivada cada dia de nossa existência. Nossa vocação é de certo modo uma ressurreição, o começo de uma nova vida. Nós também, ao dizer nosso "sim" a Deus, morremos para o mundo, para os projetos humanos que tínhamos, começamos uma nova vida. Também nós, pela nossa vocação também já não vivemos para nós mesmos, mas somente para Deus.

2- Fé inabalável:

O "escândalo da Paixão" abalou profundamente a fé dos discípulos do Senhor. E isto porque eles não tinham ainda entendido a difícil mas necessária ciência: a ciência da Cruz.

Não nos deixemos nunca abalar em nossa fé: nem diante dos piores acontecimentos. Não percamos tampouco de vista que nós vivemos num plano sobrenatural, cercados de realidades que não se podem ver, mas que nem por isso deixam de ser realidades. Espírito de fé em seguirmos nossa vocação. Espírito de fé nas diversas etapas de nossa formação. Espírito de fé no papel de nossos formadores. Espírito de fé em tudo.

3- O poder de perdoar os pecados.

Foi no dia da Ressurreição que o Senhor deu explicitamente a seus apóstolos o poder absolver.

O padre é um instrumento de Deus para destruir o pecado. Devemos amar, ter compaixão, desejo de ajudar os pobres pecadores. Mas somente poderemos tornar eficazes estes sentimentos se tivermos do pecado uma idéia bem clara: que ele é pior mal que existe; que ele é o verdugo de Deus; ele é o destruidor da vida divina que temos em nossa alma; ele acorrenta os filhos de Deus para torná-los, não filhos, mas escravos do demônio.

É desnecessário dizer que nós não podemos ter parte alguma com o pecado. Combatamos, pois, em nós, todo afeto e inclinação ao pecado. A todo e qualquer pecado.

Quanta coisa a pedir ao contemplarmos Nosso Senhor, vivo para não mais morrer.

Segundo Mistério Glorioso: A Ascensão.

Chegou enfim o dia de Cristo entrar para sempre em sua glória. Ele já instruiu seus Apóstolos; já nos deixou seu exemplo; já morreu por nós; ressuscitou mostrando-se Senhor da morte e da vida. Já lhes prometeu o Espírito Santo. Já se deixou a Si mesmo na Eucaristia. Já entregou aos Apóstolos todos os Sacramentos.

Agora reúne por última vez seus amados discípulos. Manda que esperem em oração o Espírito Santo prometido. Envia-os ao mundo inteiro para pregar a todos o Evangelho. Promete sua assistência e sua presença até o fim dos tempos. E começa a elevar-se, elevar-se, até que uma nuvem o esconde aos olhos dos presentes. Os Anjos lhes falam que Jesus como subiu, irá um dia descer à terra, no último e grande, "cuncta stricte discussurus", para julgar a todos...

Lições vocacionais deste mistério.

1- Olhar para o céu. Pensar na eternidade.

A partir da Ascensão a Igreja começa a dizer: sursum corda (corações ao alto).

E isto porque todo nosso tesouro passou a estar no céu, e portanto, lá também deve estar nosso coração. Se isto é verdade para todos os fiéis, muito mais o é para o padre, o seminarista, o vocacionado. Para nós tudo nos fala do céu, tudo em nós é visto sob o prisma da vida eterna.

Nossa vocação vem do céu. Aquele que nos amou primeiro e nos chamou está no céu. Nossa consagração, portanto nosso celibato, é por amor do Reino dos Céus. Nosso ministério tem em vista o céu: queremos encaminhar as almas para o céu.

Sursum corda. Seria a pior incoerência, se nós que por vocação e consagração somos do céu, que nos mostramos aos outros como pessoas que vivem por causa do Reino dos céus,seria um incoerência, repito, se nossa vida pessoal não fosse voltada para o céu e conservássemos somente a aparência de homens "aspicientes in coelum" . Quantas vezes os anjos teriam podido dizer-nos: ut quid statis aspicientes in terram, in vosmetipsos in carnes, in bona temporalia. Eia! Sursum corda! Olhemos, pois para o céu. Tenhamos sempre presentes as palavras da mãe dos macabeus, dirigidas ao filhinho mais novo no momento de sua morte: Suplico-te, meu filho, que olhes para o céu.

Meditemos com freqüência naquelas palavras do grande livro da Imitação de Cristo: "Ó mansão beatíssima da cidade celestial! Ó dia claríssimo da eternidade, sem noite que o obscurece, mas iluminado sempre pela soberana verdade; dia inalterável, livre de qualquer vicissitude! Já resplandece para os Santos, com toda a sua perpétua e esplêndida claridade; mas para os que peregrinam na terra só se vislumbra ao longe, como através de um espelho.

Os que habitam no céu, conhecem quão ditoso é aquele dia; os desterrados filhos de Eva gemem na amargura e tédio desta vida!" (Livro III, cap. 48)

2- Pregar sobre o céu.

Em nosso ministério, que o céu seja assunto freqüente de nossas pregações, pois a boca fala da abundância do coração. Que saibamos encorajar as almas. Levá-las à prática da virtude, levá-las ao heroísmo, com o pensamento do céu.

Diante deste secularizado, consumista e hedonista, como com freqüência nos lembra o Santo Padre o Papa João Paulo II, preguemos o céu, os valores eternos, o sacrifício, austeridade de vida, em vista do céu que nos espera. Que nós façamos guerra acirrada ao pecado que é o que afasta os homens do céu.

Pensemos no céu, olhemos para o céu, elevemos para lá nosso coração, preguemos o céu, desejemo-lo ardentemente para que possamos lá chegar um dia, e aí, nossa resposta ao Sursum corda será defitiva, será eterna: Habemus ad Dominum, in saecula saeculorum...


Terceiro Mistério Glorioso: Pentecostes.

Com o coração voltado para o céu, os Apóstolos se dirigem para o Cenáculo, como Jesus lhes havia dito e vão com Nossa Senhora.

Aos pés de Maria Santíssima, os simples galileus começam, agora no silêncio, a repassar algumas atitudes suas: suas ambições, suas rixas, seus momentos de raiva, seu medos, suas covardias. Agora vai começar a missão a que Jesus os havia escolhido. Agora nem sequer há tempo nem ocasião nem vontade de discutirem sobre quem é o maior. Eles se compenetram de seus defeitos e da magnitude da Obra que os aguarda. Eles se sentem fracos, incapazes, mas não desanimados. Eles rezam e rezam unânimes, com Maria Mãe de Jesus. Eles começam a entender que será o Espírito Santo que os santificará curando-os de suas imperfeições. Eles invocam com fervor, unanimemente o Espírito Santo, sempre com Maria Santíssima.

E sem que fosse preciso esperar quarenta dias, que é a cifra Bíblica das grandes esperas e das grandes vindas (decálogo, advento, vida pública, páscoa, ascensão, etc), o Espírito Santo desce sobre eles, sob forma de línguas de fogo: Língua porque de agora em diante é o Espírito Santo que falará por meio deles. Fogo, porque o Espírito como o fogo faz com o ouro e prata, vai purificá-los.

E a Igreja começa a sua história, história de milagres retumbantes, de martírios, de santos de todos os tipos de vida, de heroísmos em coisas imensas, mas também em minúcias do dia-dia.

Lições vocacionais deste mistério:

1- Precisamos da luzes do Espírito Santo.

Nosso tempo de formação é para nós o que foi o Cenáculo para os Apóstolos. Queremos sair do Seminário abrasados, cheios de zelo, zelo que é o resultado necessário do amor, como o vapor o é do fogo.

Em nossa ordenação receberemos uma efusão, uma unção especial do Espírito do Santo. Pois bem, para que tudo seja assim, comecemos como os Apóstolos, reconhecendo nossas limitações, nossos defeitos, nossas misérias, como dizem os santos. Como somos míopes, e mais que míopes, cegos ao olharmos para nós mesmos, peçamos ao Espírito Santo que nos conheçamos como realmente somos. E isso não para desanimarmos, mas para nos purificarmos e mais livremente trabalharmos pela Igreja.

2- Docilidade ao Espírito Santo:

O Espírito Santo não só santificou os Apóstolos, mas os guiou sempre. Eles agiam sempre sob a ação do Espírito Santo. Eis o segredo da santidade: docilidade constante ao Espírito Santo. Quanto houver conflito entre nossa vontade e a de Deus, que na maioria quase absoluta das vezes se mostra claramente através de seus representantes, sejamos dóceis ao Espírito. Sejamos como a peninha de um pássaro que o vento leva onde quer. Sejamos dóceis ao Espírito Santo para que ele nos conduza onde ele quiser, mesmo que isto implique de nossa parte, renúncia, sofrimento, desprezo, etc. Se formos dóceis ao Espírito chegaremos a agir como os Apóstolos, que viviam "gaudentes... quoniam digni habiti sunt pro Nomine Iesu contumeliam pati." (At. 5, 41)

Que Nossa Senhora, Rainha do Apóstolos, nos alcance estas graças.



Quarto Mistério Glorioso: A Assunção de Nossa Senhora.

Maria Santíssima esteve presente no começo da Igreja como boa Mãe. S. Lucas pôde ouvir dela os detalhes da Infância do Senhor, detalhes que só Ela podia contar, porque Ela os viu, Ela os presenciou e "Ela os guardou em seu coração".

Mas o Coração de Maria, desde a Ascensão, já estava no céu, pois lá estava seu grande e único tesouro. Cada dia que passava, mais aumentava seu desejo de estar com Seu Filho, novamente face-a-face e agora na eternidade. Finalmente chega este dia. Maria Santíssima, como disse o Papa Pio XII, terminando seu curso terreno, é levada ao céu em corpo e alma. Se morreu ou não, não sabemos. Necessário que ela morresse não era, pois a Lei da morte não foi feita para ela, a Imaculada. Se morreu, foi para imitar seu divino, ou então teve uma morte de amor. Tão grande teria sido seu amor que o corpo não suportou a veemência do amor. Se podia morrer, por um destes dois motivos, corromper-se no sepulcro, não podia, pois este corpo foi o templo do Verbo Encarnado, destas veias foi tomado o sangue Redentor que seria derramado na Cruz. Não, não podia corromper no sepulcro, na região da sombra da morte aquela que nos trouxe a vida, a Imaculada. Por isso Jesus levou ao Céu sua Mãe. Levou não só sua alma, mas também seu corpo, como nos reza o Dogma da Assunção.

Lições vocacionais deste mistério.

1- Como os passos da Assunção de Nossa Senhora, assim são os passos de nossa entrega a Deus.

Três são as etapas da Assunção. Nossa Senhora é retirada deste mundo, é levada a Deus e se une íntima e eternamente a Deus no céu. É o que acontece conosco em nossa vocação.

Nossa vocação nos tira de certo modo do mundo, no sentido em que não viveremos mais para as coisas do mundo, para os interesses mundanos. Não teremos mais miras mundanas. Não agiremos segundos o critérios do mundo. Nosso tempo de formação é um tempo de aproximação cada vez maior de Deus, aproximação pelo estudo, porém muito mais pelas virtudes, pela graça. E devemos levar adiante este nosso trabalho de santificação até que estejamos totalmente unidos a Deus, sem que nada possa dele nos separar.

2- A Assunção é um grande convite a que levemos uma vida cada vez mais pura.

Nossa Senhora não devia sofrer a corrupção, pela pureza, pureza única, pois se trata da preservação do pecado original.

O céu é a recompensa para os corações puros.

Corações puros em vários sentidos:

Corações castamente puros, tão puros que merecerão ver a Deus. Portanto corações livres de todas as cadeias da carne e afetos desordenados. Corações indivisos.

Corações puros e purificados de qualquer pecado ou qualquer afeto contrário à vontade de Deus.

Corações livres de qualquer escravidão. É a isso que somos chamados. É a estes que está reservado o Céu.

Que Nossa Senhora da Assunção nos alcance a graça de realizarmos em nossa vocação os passos de sua Assunção. Alcance-nos também a Imaculada um coração puro, puro em todos os sentidos.

Quinto Mistério Glorioso: A Coroação de Nossa Senhora.

Quae est ista quae processit sicut aurora...

Quem é esta que avança como a aurora... É Maria Santíssima que chega ao Céu. É a Rainha que vai ser coroada, é a Mãe de Deus via sentar-se à Direita de seu Filho.

Depois de sua assunção, como arremate, Maria Santíssima é glorificada, coroada no Céu, como Rainha dos Anjos e dos Santos.

A coroação de Nossa Senhora está entre estas cenas, que no dizer do Apóstolo, nem o olho viu, nem o ouvido ouviu... É desta cenas que o Espírito não quis fossem escritas com pena humana, e ficam reservadas para a eternidade.

Lições vocacionais deste mistério.

A Glorificação de Nossa Senhora foi o prêmio infinito de por sua fidelidade.

Por isto,

1- Este mistério é para nós um convite à perseverança.

Nossa perseverança.

Vincenti dabo coronam vitae, diz o Apocalipse. Darei a coroa ao vencedor.

Deus nos reserva um grande prêmio no céu, prêmio que "ultraprassa" qualquer esforço, qualquer sofrimento, qualquer renúncia, qualquer heroísmo. E este prêmio, é o próprio Deus, como Ele mesmo nos diz, numas palavras que não podemos ler e meditar sem nos comovermos: "Ego erro merces tua magna nimis." Não só magna, mas magna nimis... demasiadamente grande.

Como nos sentiremos felizes quando, chegando no céu, dissermos ao Senhor: "Domine, quinque (ou duo talenta) tradisiti mihi..." E ele nos responderá o "Euge serve bone et Fidelis..." Eia, servo bom e fiel... Padre, bom e fiel, meu seminarista, meu vocacionado, alma consagrada. Tu que ouviste meu convite, e conduziste a águas mais profundas tua barquinha, abraçando um estado de vida que é mais perfeito. Tu que me serviste com um coração sem divisões; tu que me deste todo teu amor, tu que abraçaste o celibato pelo Reino dos Céus; tu que soubeste renunciar a tantas coisas por meu amor, vem para a alegria de teu Senhor.

2- Meios para nossa perseverança?

Vida de oração.

A Oração nos mantém unidos a Deus, faz-nos viver em sua presença, faz com que nós o conheçamos sempre melhor, e por isso a oração suscita em nossa alma o desejo de possuir a Deus um dia no céu. Este desejo que a oração nos inspira, nos levará a querermos seguir em frente em nossa fidelidade até o dia de nossa morte, e assim a oração nos ajuda a perseverar.

Sacramentos, principalmente Penitência e Eucaristia.

O Sacramento da Penitência purifica nossa alma e nos dá forças para evitar novas quedas.

A Eucaristia é o Céu na terra, só nos falta a visão... Iesu, quem velatum nunc aspicio, oro fiat illud quod tam sitio...

Que cada comunhão nossa, cada encontro nosso com Jesus Eucarístico, seja uma antecipação da alegria que teremos no céu. Portanto esforcemo-nos por fazermos bem nossas comunhões.

Fidelidade a todas as nossas obrigações.

Pela vossa paciência pussuireis as vossas almas, nos diz o Mestre no Evangelho. Paciência que pode ser entendia aqui como constância, fidelidade, perseverança. S.José Maria Escrivá repete muitas vezes em seus escritos esta sentença que devemos ter gravada em nossa alma: Somos filhos de Deus e como filhos de Deus, devemos fazer tudo bem feito. Lembremo-no do servo bom fiel, fiel em coisas pequenas, mas fiel até o fim.

Evitar a rotina.

Uma coisa que pode fazer esfriar em nosso coração o desejo do céu, é a rotina, a monotonia, ou seja, eu me acostumo com a vida que levo, faço maquinalmente minhas orações; torno-me como uma máquina, basta ligar que ela faz tudo, mas o faz sem vida, sem alma. Façamos guerra à rotina em nossa vida. Que cada dia que começamos, seja como se fosse nosso primeiro dia no Seminário ou no sacerdócio. Que cada ação que fazemos seja sempre como se fosse a primeira vez que a vamos realizar. Em muitas sacristias se encontra aquela exortação ao celebrante: "Sacerdote, celebra tua Missa como se fosse a PRIMEIRA, como se fosse a ÚLTIMA, como se fosse a ÚNICA".

Que Nossa Senhor da Glória, nossa Senhora Rainha, nos alcance a perseverança nesta vida para que um dia possamos chegar à posse eterna de Deus no céu. Amém.

 

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