Bom Dia! Sexta-feira, 17 de Agosto de 2018.
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Explicação da Santa Missa
     I. DA ESSÊNCIA DO SANTO SACRIFÍCIO DA MISSA
     II. EXCELÊNCIA DO SANTO SACRIFÍCIO DA MISSA
     III. SÍMBOLOS DO SANTO SACRIFÍCIO DA MISSA
     IV. NA SANTA MISSA, JESUS CRISTO RENOVA SUA ENCARNAÇÃO
     V. NA SANTA MISSA, JESUS CRISTO RENOVA SEU NASCIMENTO
     VI. NA SANTA MISSA, JESUS CRISTO RENOVA SUA VIDA
     VII. NA SANTA MISSA, JESUS CRISTO RENOVA A SUA ORAÇÃO

I. DA ESSÊNCIA DO SANTO SACRIFÍCIO DA MISSA



     Na língua sagrada de nossa mãe, a Santa Igreja católica, no latim, a Santa Missa é designada pelo nome de "sacrificium", sacrifício.

     "Um sacrifício é um dom visível, oferecido, exclusivamente, a Deus, por um ministro sagrado, para reconhecer a soberania do Altíssimo sobre todas as coisas".

     O sacrifício, portanto, é um culto devido, exclusiva e unicamente, a Deus. A nenhuma criatura, por mais elevada que seja, compete jamais um sacrifício.

     Diz Santo Agostinho: "Quem pensaria jamais, que se pudesse oferecer sacrifício, senão ao Deus único e verdadeiro?"

     Somente à idolatria insana dos Imperadores romanos ficou reservada a presunção sacrílega de exigir, dos súditos desditosos, sacrifícios de diversas formas.

     Indagando a origem do sacrifício, que encontramos entre os povos, sem exceção devemos confessar, com S. Tomás de Aquino, que é uma lei natural oferecer sacrifícios a Deus, e, por este motivo, é que o homem se sente levado a sacrificar, sem insinuação ou conselho de alguém.

     Com efeito, Caim e Abel, Noé e Abraão, como outros patriarcas, profetas e reis do antigo testamento ofereceram a Deus sacrifícios espontaneamente.

     Porém não só os que conservaram a fé no Deus verdadeiro, mas também os povos que apostataram desta fé, os pobres pagãos, ofereceram sacrifícios a seus ídolos. Pois, o sacrifício, como a religião, da qual é a mais elevada manifestação, é, realmente, uma necessidade da natureza humana, e, por isso, encontramo-lo entre todos os povos de todos os tempos.

     Por conveniência imperiosa, Jesus Cristo cuidou de deixar na sua religião, divinamente perfeita, uma forma de sacrifício, como jamais houve entre povo algum; e essa forma de sacrifício é a Santa Missa.

     A respeito, ensina o Santo Concílio de Trento: "Segundo o testemunho de S. Paulo Apóstolo, o sacerdócio levítico do antigo testamento não atingiu a perfeição. Assim, desde a origem do mundo, o Deus da Misericórdia determinara, que surgisse um sacerdote podendo aperfeiçoar e completar o sacrifício. Esse sacerdote era Jesus Cristo, Nosso Senhor que, depois de se ter oferecido a seu Pai sobre o altar da cruz, não queria deixar extinto o seu sacrifício, e, na véspera de sua morte, deu a sua esposa mística estremecida, a Santa Igreja, um sacrifício visível, segundo as exigências da natureza humana."

     Este sacrifício devia perpetuar o Sacrifício cruento que Jesus Cristo ia oferecer sobre a Cruz; devia perpetuar-lhe a memória até o fim dos tempos e, por sua virtude salutar, nossos pecados quotidianos deviam ser perdoados. Deste modo, Jesus Cristo declarou-se sacerdote segundo a ordem de Melquisedec, oferecendo a seu eterno Pai seu Corpo e seu Sangue, sob as aparências de pão e vinho, que deu a seus apóstolos também sob as mesmas espécies, instituindo-os sacerdotes do novo Testamento. E, dizendo as palavras: "Fazei isto em memória de mim", ordenou-lhes e aos seus sucessores no sacerdócio, que os oferecessem em sacrifício.

     A Santa Igreja nos ensina que, na última Ceia, Jesus Cristo não só mudou o pão e o vinho em seu Corpo e em seu Sangue, mas também ofereceu-os a Deus, seu Pai, e instituiu e ofereceu pessoalmente o Sacrifício do novo Testamento, a fim de que se reconhecesse, nele, este sacerdote de que canta o salmista: "O Senhor jurou e não se arrependerá de seu juramento. És sacerdote eterno segundo a ordem de Melquisedec" (Sl. 109, 4). Muito contrário ao costume de sua época, Melquisedec não imolava animais como faziam Abraão e outros patriarcas, mas, por inspiração do Espírito Santo, levantava o pão e o vinho para o céu e oferecia-os por meio de cerimônias e orações especiais. Assim tornou-se a figura de Jesus Cristo, e seu Sacrifício é o símbolo da nova Lei. Como tudo que se relaciona com a pessoa do salvador foi objeto de admiráveis profecias, desde os dias do paraíso até os últimos tempos do antigo testamento, também o sacrifício que havia de coroar e perpetuar a obra redentora na cruz, foi predito séculos antes. Escreve o profeta Malaquias: "Minha afeição não está mais em vós, diz o Senhor dos exércitos, e nunca mais receberei ofertas de vossas mãos, porque, desde o oriente até o ocidente, meu nome é grande entre as nações e, em toda parte, se sacrifica e oferece uma oblação pura".

     Esta profecia não se realizou no antigo testamento, como se vê no próprio texto, pois o próprio Deus declara rejeitar os antigos sacrifícios.

     Tão pouco a profecia se refere ao sacrifício da cruz, porque esse sacrifício foi oferecido somente uma vez e em um lugar.

     É de um sacrifício novo e puro em que Deus tem as complacências, que o profeta fala. Esse sacrifício, infinitamente puro, não pode ser outro senão o sacrifício da Missa. Desde o momento de sua instituição no cenáculo, crêem e confessam isto os apóstolos, os evangelistas, todos os primeiros cristãos, e assim ainda crê e confessa a Igreja católica universalmente, tanto quanto as igrejas carismáticas orientais.

     De acordo com o evangelista S. Lucas, a Santa Igreja ensina: "Na véspera de sua morte, Jesus Cristo tomou o pão e, rendendo graças a Deus, partiu-o e deu aos discípulos, dizendo: "Isto é o meu Corpo que será entregue por vós; fazei isto em memória de mim". Da mesma forma, tomou o cálice depois da ceia, dizendo: "Este cálice é o novo Testamento em meu Sangue, que será derramado por vós." (Lc. 22, 19-29).

     Ponderemos bem o que diz e faz o Senhor: Muda o pão em seu Corpo, e o vinho em seu Sangue; e por esta separação mística de seu Corpo e de seu Sangue, constituiu-se em holocausto. As palavras que acompanham a transubstanciação, indicam o sacrifício. "Isto é o meu Corpo, que será entregue por vós, isto é o meu Sangue, que será derramado por vós". Ainda que se quisesse aplicar estas duas palavras "entregar" e "derramar" ao Sacrifício da Cruz, Jesus Cristo afirma, claramente, que estas duas ações se realizam na Ceia, e assim afirma também que houve aí sacrifício.

     Se os adversários pretendem desvalorizar este ensino de nossa Santa Igreja, dando outras explicações torcidas e infundadas, como é que explicarão as palavras claras de S. Paulo Apóstolo, quando escreve aos Hebreus:

     "Temos um altar, e uma vítima da qual os que prestam serviços ao Tabernáculo, (isto é, os judeus) não têm o direito de comer" (Hb. 13, 10). Ora, não poderia existir altar sem oblação, e a palavra "comer" indica, claramente, que não se trata do sacrifício da Cruz, mas de um sacrifício (comestível) nutriente, tal qual Jesus Cristo o instituiu na Ceia.

     Lemos também, na vida do apóstolo S. Mateus, que foi morto no altar, quando celebrava os santos mistérios. Na vida de Santo André, refere-se que ele disse ao juiz Egéias: "Ofereço em sacrifício, diariamente, a Deus todo-poderoso, não a carne de touros, nem o sangue dos animais, mas o Cordeiro Imaculado".

     É atribuída ainda a S. Tiago e a S. Marcos uma liturgia da Santa Missa. Enfim, atribui-se também a S. Pedro o "Cânon", isto é, a parte da Santa Missa que vai do "Sanctus" até a Comunhão.

     Tantos testemunhos provam que o Santo Sacrifício do novo Testamento esteve, desde o começo, em uso na Igreja.

     O fato de não se encontrar a palavra "Missa" nas sagradas letras, não pode servir de argumento contra a doutrina da Igreja. A palavra "Trindade" também não se encontra; e, não obstante, os adversários aceitam-na. Mas, em 142, encontramos a palavra Missa tal qual a empregamos. O Papa Pio I faz uso da palavra de maneira que evidencia que o termo era geralmente, adotado e conhecido. Daí em diante, a palavra Missa não desaparece mais dos escritos dos santos Padres e mais escritores da Igreja católica.

     A Igreja grega emprega nomes de significação idêntica. Falam, por exemplo, da mesa ou do altar do Senhor, ceia, oferta. Em vista disso, que valem os ataques dos hereges?

     Os ataques violentos promovidos, em diversas épocas, contra a Santa Missa, testemunham-lhes à santidade e importância como também o ódio com que o demônio a persegue.

     No curso dos dez primeiros séculos, quando numerosos hereges afligiam a Santa Igreja, nenhum deles ousou atacá-la. Era preciso, para isto, um alto grau de perversidade, uma audácia verdadeiramente infernal.

     Isto só aconteceu no décimo primeiro século pelo herege Berengar de Cours. Porém, mal havia disseminado as blasfêmias, o orbe católico recuou de espanto e clamou-lhe indignado: "Tornai-vos uma pedra de escândalo para os fiéis, separai-vos de nossa Mãe, a Santa Igreja, pois perturbais a unidade dos cristãos". Berengar, depois de anatematizado por mais de cindo Concílios, por um milagre da misericórdia divina, abjurou os erros, fez penitência, e morreu em 1088, confessando a doutrina verdadeira.

     Infelizmente, a heresia sobreviveu-lhe, sendo pregada, alguns anos depois, pelos albigenses, seita perversa que declarava, entre outros erros, o matrimônio como ilícito, e permitia a impureza. Em particular, atacava a Missa privada, vulgarmente chamada Missa-rezada. Aos que assistiam a essas Missas, perseguiam com penas horrorosas e, mais ainda, aos Padres que tinham a coragem de celebrar os santos mistérios.

     Após os albigenses, os inimigos mais encarniçados da Santa Missa foram os reformadores do século décimo sexto. O próprio Lutero confessa, no livro "contra a missa", cap. XIX, ter sido impelido por Satanás a abolir a Santa Missa como um ato de idolatria, e que fez sabendo, perfeitamente, que o demônio odiava todo o bem e que seus ensinos eram mentirosos.

     Se as trevas infernais não tivessem invadido, inteiramente, toda a inteligência de Lutero, não teria antes raciocinado assim: se Satanás considera a Santa Missa como um ato de idolatria, para que procura abolí-la, em vez de louvá-la e propagá-la, a fim de insultar mais cruelmente o Altíssimo?

     Ora, Satanás privou o Santo Sacrifício da Missa a todas as seitas luteranas, causando-lhes tão profundo ódio contra este santo mistério, que vomitaram a espantosa blasfêmia: "A Missa é uma abominável idolatria... aí renuncia-se o sacrifício cruento de Cristo!" Assim se exprime o catecismo dos calvinistas de Heidelberg.

     Pobres insensatos! Neste caso, como podem admitir que uma alma se tenha salvo desde Jesus Cristo? Todos os apóstolos, todos os sacerdotes têm celebrado o Santo Sacrifício da Missa, os mártires, os confessores assistiram-no com terna devoção. Acusarão todo este exército de Cristo de idolatria, e, por conseguinte, digno do inferno? O simples bom senso a isso se opõe.

     Ah, mais suave é ouvir S. Fulgêncio dizer: "Creio, sem dúvida alguma, que o Filho único de Deus, feito homem por nós, ofereceu-se em sacrifício a Deus Altíssimo, a quem a Igreja católica oferece, sem cessar, na fé e na caridade, o Sacrifício do pão e do vinho".

     Tomemos cuidado para não nos acontecer o que aconteceu aos hereges, a quem Satanás tirou a Santa Missa. Não podendo privar-nos inteiramente dela, esforça-se, pelo menos, para cegar-nos sobre o valor infinito do Santo Sacrifício a fim de que, apreciando-o pouco, deixemos de assisti-lo, ou não tiremos os abundantes frutos de graças que poderíamos colher. 

 

II. EXCELÊNCIA DO SANTO SACRIFÍCIO DA MISSA

 

     A excelência da Santa Missa é tão grande, que os próprios Serafins não podem compreende-la perfeitamente. Experimentemos, entretanto, investigar os ensinamentos da Igreja a este respeito.

     São Francisco de Sales diz: "O santíssimo Sacrifício do altar é, entre os exercícios da religião, como o sol entre os astros, porque é verdadeiramente a alma da piedade e o centro da religião cristã, ao qual todos os seus mistérios e todas as suas leis se relacionam; é o mistério inefável da divina caridade, pelo qual Jesus Cristo, dando-se realmente a nós, cumula-nos com suas graças de maneira igualmente amável e magnificente" (Introdução à vida devota).

     O sábio Osório julga a Santa Missa acima de todos os outros mistérios da nossa religião: "Entre todos os atos da Igreja, o Santo Sacrifício da Missa é o mais augusto e mais precioso, porque o Santíssimo Sacramento do altar é aí consagrado e oferecido a Deus". E Fornerus de Bamberg acrescenta: "Se bem que todos os Sacramentos estejam cheios de majestade, a Santa Missa excede-os; aqueles são vasos que contêm a divina misericórdia para os vivos, esta é um oceano inesgotável de liberalidade divina pelos vivos e pelos mortos".

     Vejamos agora em que se manifesta a excelência da Santa Missa.

     Em primeiro lugar, manifesta-se, no cerimonial pomposo da bênção solene ou consagração de uma igreja, ou dum altar pelo Bispo. Longo demais seria narrar aqui toda a cerimônia - aliás rara entre nós, devido a diversas razões; mas é certo que a consagração das igrejas é uma cerimônia tão tocante e insinuante, que facilmente dela se deduz que, das nossas igrejas, muito mais que do templo de Jerusalém, valem as palavras do profeta Isaías: "Conduzi-los-ei à montanha santa, enchê-los-ei de alegria, à invocação de meu nome; a vítima que me oferecerem há de me ser agradável, porque minha casa será chamada por todos os povos, casa de oração".

     Desta palavra fez menção Jesus Cristo, quando, cheio de santa indignação, expulsou do templo de Jerusalém os que o violavam pelos negócios gananciosos. Lembremo-nos, também, desta mesma palavra para, cheios de santa fé e religioso respeito, entrarmos em nossas igrejas para adorarmos a Jesus Cristo, corporal e essencialmente, presente no santo altar. Conservemo-nos alheios do costume altamente censurável de fazer dos templos sagrados lugares de conversas e, quiçá, de faltas mais graves.

     Em segundo lugar, a excelência da santa Missa nos é demonstrada pelo rito solene da ordenação dos ministros do altar, mormente dos sacerdotes. Dispensamo-nos ainda de expor longamente a administração do santo sacramento da ordem, do sacerdócio, para não se avolumar demais este livro. Quem já teve ensejo de assistir à ordenação de neopresbíteros, não terá deixado de experimentar singular impressão, sentindo a grandeza oculta do ato, seu efeito duradouro do estado sacerdotal e de seu fim elevado de oferecer o santo sacrifício da Missa.

     Ainda poderíamos referir-nos aos objetos que servem à celebração da santa Missa e dar outras tantas provas da excelência do mesmo sacrifício da Missa, pois a grande e rigorosa diligência de nossa santa Igreja se inspira na compreensão e estima que tem daquilo que se passa no santo altar. Inspiremo-nos nesta diligência, para assistirmos sempre com rigorosa atenção a tão grande mistério.

     Até a língua empregada no sacrossanto sacrifício da Missa, a Igreja faz compreender que no altar se efetua algo de superior ao comum. Não se usa a língua vulgar - mas a língua sagrada da Madre Igreja. Houve quem ousasse censurar o uso do latim na Missa, - mas entendamos bem: A santa Missa não é uma instrução, mas um grande mistério. O sacerdote não celebra para ensinar, mas para santificar-se e ao povo. Para tomarmos parte na santa Missa, não é preciso compreendermos as palavras, basta e cumpre unirmo-nos, afetuosamente, ao que se passa no altar. No emprego da língua latina no santo sacrifício, temos ainda um valioso símbolo da unidade da Igreja: Uma só Igreja, um só sacrifício, uma só língua em todo o mundo no altar.

     Passemos agora à prova mais evidente da excelência da santa Missa, que consiste em demonstrar quem é a pessoa do sacrificador, e qual a oferta na santa Missa.

     Quem é o sacrificador? - o sacerdote? o Bispo? o Papa? - Não. - Será um Anjo do céu? um Santo? a própria Mãe de Deus, Maria Santíssima? - Oh, não. É o sacerdote dos sacerdotes, o Bispo dos Bispos, o Filho de Deus, Jesus Cristo, "o sacerdote eterno segundo a ordem de Melquisedec".

     É ele quem dá à santa Missa a excelência incomparável; é ele quem eleva a oferta do pão e do vinho a um sacrifício divino.

     Que Jesus Cristo é o sacerdote na santa Missa, prová-lo-emos com estas palavras de S. João Crisóstomo: "O mesmo Jesus Cristo que nos preparou, na última Ceia, esta mesa sagrada, está aqui para abastece-la; pois não é o homem que muda o pão e o vinho no Corpo e no Sangue de Nosso Senhor, mas sim Jesus Cristo que, por nós, foi crucificado".

     Com estas palavras S. Crisóstomo prova que Jesus Cristo cumpre, pessoalmente, a parte essencial da santa Missa; que desce do céu, muda em seu Corpo e Sangue, o pão e o vinho, oferecendo-se, em holocausto, a seu Pai pela salvação do mundo, e ora, como fiel mediador, pelos pecados do povo. Os sacerdotes são apenas seus instrumentos: emprestam-lhe a boca, a língua, as mãos para a realização do divino Sacrifício.

     Se alguém recusar crer no testemunho de S. Crisóstomo, eis a decisão do grande Concílio de Trento: "O Sacrifício da Cruz e o Sacrifício da Missa são um só e mesmo sacrifício, porque aquele que se imolou sobre a Cruz, de maneira cruenta, é o mesmo que se imola na santa Missa, de modo incruento, pelo ministério dos sacerdotes".

     É pois, doutrina da santa Igreja, que os sacerdotes são simplesmente os servos de Jesus Cristo e que Nosso Senhor se oferece, no altar, tão verdadeiramente como se ofereceu sobre o patíbulo da Cruz.

     Que honra! que graça! que inestimável benefício! O divino Salvador digna-se de fazer-se nosso sacerdote, nosso mediador, nosso advogado!

     Eis o que também refere S. Paulo em sua Epístola aos Hebreus: "Era justo que tivéssemos um pontífice como este: santo, inocente, sem mancha, segregado dos pecadores, e mais elevado que os céus, que não fosse obrigado, como os outros pontífices, a oferecer vítimas, todos os dias, primeiramente pelos próprios pecados e, em seguida, pelos pecados do povo. A lei antiga estabeleceu, para pontífices, homens fracos, mas a palavra de Deus, confirmada pelo juramento que fez depois da lei, constituiu pontífice o Filho, que é santo e perfeito eternamente" (Heb. 7, 26-28).

     Não são estas magníficas palavras do Apóstolo uma prova de quanto Deus nos estima, visto que nos deu, por sacerdote e mediador, não um homem frágil e pecador, mas seu Filho único, a própria santidade?

     Consideremos, agora, por que Jesus Cristo não quis confiar seu sacrifício a homem nenhum. A principal razão foi porque este sacrifício devia ser puríssimo como o profeta Malaquias o havia anunciado.

     Em todo lugar, sacrifica-se e oferece-se ao meu nome uma oblação pura. Foi por esta razão que Deus reservou o nome a função de sacerdote a seu Filho único, ao sacerdote eterno segundo a ordem de Melquisedec.

     Deste modo, o sacerdote celebrante não é propriamente falando, o sacrificador, porém apenas o servo do grande sacerdote Jesus Cristo.

     Segue-se daí, que toda Missa é de um valor infinito, pois é celebrada pelo próprio Jesus Cristo, com uma devoção, um respeito, um amor acima do entendimento dos Anjos e dos homens. O mesmo Jesus Cristo revelou esta verdade à Santa Matilde: "Só Eu, disse, compreendo, perfeitamente, de que forma me imolo, todos os dias, sobre o altar pela salvação dos fiéis; os Querubins e os Serafins, nenhuma Potestade celeste, saberiam compreende-la inteiramente" (Revelações, I, 19). Oh meu Jesus! que impenetrável mistério e que felicidade para nós, pobres pecadores, sermos admitidos à santa Missa, onde efetuais essa salutar oblação!

     Caro leitor, considera bem estas palavras e quanto te é vantajoso assistir à santa Missa, em que Nosso Senhor se oferece por ti; faz-se o mediador entre tua culpabilidade e a justiça divina, e retém o castigo que merecem, cada dia, os teus pecados. Oh, se abrisses bem os olhos a esta verdade, como amarias a santa Missa; como suspirarias pela felicidade de assisti-la. Como a ouvirias devotamente. Como te lastimarias por faltar a uma só! Para poupar um tal prejuízo a tua alma, suportarias, de boa vontade, qualquer dano temporal. Os primeiros cristãos nos deixaram disto o exemplo: preferiram perder a vida a deixar de assistir à santa Missa.

     Já insistimos muito na excelência da santa Missa; entretanto, resta-nos ainda a tratar de um ponto importante: o valor da oferta, apresentada à Santíssima Trindade.

     É evidente que esta oferta, para ser digna de Deus, deve ser de um preço inestimável, porque quanto maior é a quem se faz uma oferta, tanto mais preciosa ela deve ser. Se alguém ousasse oferecer uma bagatela a um príncipe, cobrir-se-ia de confusão.

     Ora, o céu e a terra são apenas uma bagatela diante da imensa Majestade de Deus.

     "O mundo, perante Deus, é o grãozinho que apenas dá diminuta inclinação à balança, a gota do orvalho da manhã, que cai sobre a terra" (Sabedoria, 11, 23).

     Então, onde achar, no universo inteiro, alguma coisa digna de Deus?

     Que acharia Jesus Cristo, mesmo no céu, que fosse digno de Deus?

     No céu e sobre a terra achou apenas sua santa, imaculada e bendita Humanidade, isto é, o que a onipotência de Deus produziu de maior. "A Humanidade de Jesus Cristo, disse Nossa Senhora à Santa Brígida, foi, e será para sempre, o que há de mais precioso".

     Com efeito, a mão liberalíssima de Deus ornou esta Humanidade de tantas graças e perfeições que nada mais lhe podia acrescentar. Não porque Deus não pudesse, absolutamente, conceder mais, porém porque a capacidade da humanidade não as poderia conter.

     Todavia, esta Humanidade tão bela, tão pura, tão santa e perfeita, não pode oferecer um sacrifício digno da adorabilíssima Trindade senão em razão de sua união com a pessoa do Verbo eterno, união que dá a todos os seus atos e sacrifícios um valor e merecimento infinitos.

     Por esta grande dignidade, durante sua permanência na terra, a santa Humanidade do divino Salvador atraiu a mais profunda veneração, não só de homens piedosos como também de Anjos do céu. Que adoração universal, porém, é prestada agora a esta santa Humanidade no céu, onde se acha gloriosa e imortal em um trono, à direita do Pai celeste!

     A santíssima Humanidade de Jesus Cristo forma a única oferta digna de ser apresentada no santo Sacrifício, e, na verdade, é o mesmo Jesus Cristo quem a oferece. Com ela, oferece tudo o que efetuou e sofreu durante os trinta e três anos de sua vida mortal: jejuns, vigílias, orações, viagens, mortificações, pregações, perseguições, insultos, zombarias, lágrimas, gotas de suor, agonia no jardim das oliveiras, flagelação, coroação de espinhos, crucificação, morte e sepultura. Além disto, oferece a Humanidade, inseparavelmente unida à Divindade, porque, embora a Divindade não seja objeto do sacrifício, a Humanidade é nele oferecida no estado de perfeição a que a eleva à união hipostática.

     Medi, pois, se podeis, o valor de uma tal oferta. Enfim, Jesus Cristo não oferece sua Humanidade sob a forma que tem no céu, mas no estado em que se acha sobre o altar. No céu ela é tão gloriosa que os Anjos tremem ante sua Majestade: no altar, pelo contrário, sua humilhação é tão extrema que estes mesmos se enchem de espanto.

     A Humanidade de Nosso Senhor está, de tal modo, unida e estreitada às espécies eucarísticas que nunca se podem separar, nem mais aí subsistirá, quando forem destruídas as espécies. De que modo contempla a Santíssima Trindade este prodígio de humanidade! Que glória para o Pai celeste! Que virtude, que perfeição não recebe daí a santa Missa onde se cumprem estes divinos Mistérios! Que bênção, que socorro para aqueles em cujas intenções o santo Sacrifício é oferecido! Que consolação, que alívio não recebem as almas do purgatório, quando a santa Missa é celebrada, ou ouvida pelos seu livramento! A Missa quotidiana é a arma, pela qual a graça e a misericórdia sobressaem à justiça.

     Agradeçamos, pois, ternamente ao divino Salvador por nos ter legado, a nós, seus pobres filhos, um sacrifício tão poderoso; agradeçamos-lhe por nos ter deixado este meio infalível de atrair as ondas da divina misericórdia.

     Para glória da santa Missa, relatamos como se fez a consagração da capela d'Einsiedeln, na Suíça, e como o mesmo Nosso Senhor Jesus Cristo celebrou o santo Sacrifício como grande solenidade.

     Oitenta anos depois da morte de Meinrado, o santo eremita Eberardo, piedoso solitário de nobre família, foi pedir a S. Corado, Bispo de Constança, a graça de consagrar a capela de S. Meinrado. O virtuoso Bispo anuiu-lhe ao pedido. Na festa da Exaltação da santa cruz, em 14 de setembro de 940, devia realizar-se a consagração.

     Mas, indo para a capela, a fim de entregar-se à oração, o santo Bispo ouviu os coros dos Anjos cantar as antífonas e os responsórios da consagração. Entrou e viu a capela cheia de Anjos, e, no meio deles, Nosso Senhor, que, revestido de paramentos episcopais, procedia à consagração do santuário. À vista disto, Conrado caiu em santo êxtasis, sem, entretanto, nada perder de sua atenção. Viu e ouviu Nosso Senhor pronunciar as palavras da Igreja e desempenhar-lhe as cerimônias em igual festa. Os apóstolos, os Anjos e uma multidão de Santos assistiam-lhe. A Mãe de Deus, a quem o altar e a capela eram dedicados, aparecia em cima do altar, mais brilhante que o sol, mais resplandecente que o fulgor do relâmpago.

     Terminada a consagração, o Senhor começou a Missa solene, depois da qual toda a corte celeste desapareceu, deixando Conrado em transporte de alegria.

     Reconheceu, sobre as cinzas que cobriam o solo, as marcas dos pés do Salvador e, sobre as paredes, os traços das unções.

     De manhã, o clero veio buscar o Bispo para fazer a sagração, porém ele disse: "Não posso consagrar este santuário, porque já foi consagrado de maneira misteriosa".

     Insistem, forçam-no, quando uma voz celeste se faz ouvir e repete por três vezes: "Pára, meu irmão, a capela já está consagrada".

     Mais tarde, S. Conrado referiu ao Papa Leão VIII este fato extraordinário, cuja veracidade o mesmo Papa afirmou num rescrito apostólico, em que proibiu tornar a consagrar a capela, e concedeu indulgências especiais aos fiéis, que a freqüentassem (Legende der Heiligen von Ott, p. 2326).

     Caro leitor, dizes, com certeza: "Ah! se pudesse assistir a uma festa igual, ver o que viu S. Conrado, ouvir o que ele ouviu! Que prazer, que emoção!".

     Entretanto, não está presente, em cada Missa, Nosso Senhor, o grande pontífice? Não nasce, em cada Missa, sobre o altar, e não o cercam os Anjos?

     Feliz serás, pois, se considerares que te achas no meio de uma tão alta assembléia, que se digna de unir tuas pobres orações às suas, para faze-las subir até o trono de Deus.

 

III. SÍMBOLOS DO SANTO SACRIFÍCIO DA MISSA

 

     Querendo falar dos sublimes e múltiplos mistérios da santa Missa, devemos dizer com o rei David: "Vinde e vede as obras do Senhor e os prodígios que operou sobre a terra" (Sl. 45, 9).

     Nosso divino Salvador fez muitos e grandes milagres, quando vivia neste mundo; nenhum, porém, parece tão admirável como a instituição da santa Missa, na última Ceia.

     É a Santa Missa o compêndio das maravilhas das obras de Deus, um milagre que contém em si tantos mistérios, que São Boaventura, meditando-os, prorrompeu nestas palavras: "A santa Missa tem tantas maravilhas quantas são as gotas d 'água no oceano, os grãozinhos de poeira no ar, as estrelas no firmamento, e os Anjos no céu. Nela se operam, quotidianamente, tantos mistérios que não sei se, em tempo algum, a mão onipotente de Deus fez obra melhor e mais sublime" (Tom. 6. De Sacramentis).

     Palavras admiráveis! Será então verdade que a santa Missa contém tantos mistérios que a língua humana jamais os pode enumerar? O grande teólogo padre Sanchez confirma as palavras de São Boaventura, e acrescenta: "Na santa Missa, recebemos tesouros tão admiráveis, dons tão preciosos, bens tão essenciais para esta vida e uma esperança tão firme para a outra, que nos é necessária, para crê-lo, a virtude da fé. Assim como se pode tirar, sem diminuir, toda a água que se quiser, do mar, ou dos grandes rios, da mesma forma, apesar da abundância das graças que tirardes na santa Missa, não diminuireis nem lhe esgotareis jamais os tesouros" (Thes. Missae, e. 1).

     O primeiro símbolo da santa Missa foi o sacrifício do justo Abel, oferecendo, piedosamente, ao Altíssimo as primícias de seu rebanho. Este sacrifício agradou ao Senhor; pois que diz a Sagrada Escritura: "O Senhor lançou os olhos sobre Abel e sobre a sua oferta" (Gen. 4, 4). O sacrifício de Abel partia dum coração submisso e fiel, e era feito em vista do futuro Salvador. O fogo desceu do céu, diz a Sagrada Escritura, e consumiu o holocausto de Abel.

     O sacrifício de Abel agradou visivelmente ao Altíssimo; mais lhe agrada, porém o Sacrifício do novo Testamento. Quando o sacerdote oferece, na santa Missa, o pão e o vinho, e pronuncia as palavras da consagração, o fogo divino do Espírito Santo consome o pão e o vinho, mudando-os no Corpo e no Sangue de Jesus Cristo. Este holocausto, portanto, é infinitamente mais agradável ao Senhor que o de Abel. O Pai celestial o acolhe com grande satisfação, dizendo: "Este é meu Filho bem amado em que pus toda a minha complacência".

     São outras figuras do santo Sacrifício da Missa os sacrifícios de Noé, de Abraão, de Isaac e de Jacó, narradas em vários lugares da Sagrada Escritura. Porém, o símbolo mais tocante da Missa foi o sacrifício que Melquisedec ofereceu a Deus todo-poderoso, em reconhecimento da vitória de Abraão. Este sacrifício consistia em pão e vinho, e era acompanhado de preces e de cerimônias particulares. O próprio Melquisedec era uma figura de Jesus Cristo. Seu nome significa: Rei da paz; pois, como Jesus Cristo, era, ao mesmo tempo, rei e sacerdote.

     No cânon da Missa, imediatamente depois da consagração, faz-se menção dos sacrifícios antigos, quando o sacerdote diz: "Oferecemos à vossa sublime Majestade o dom de uma vítima (+) pura, de uma vítima (+) santa, de uma vítima (+) sem mancha, o pão sagrado (+) da vida eterna e o cálice da eterna (+) salvação. Outrora aceitastes os sacrifícios dos tenros cordeiros que Vos ofereceu Abel; o sacrifício que Abraão Vos fez de seu filho único, imolado sem perder a vida. Enfim o sacrifício misterioso do pão e do vinho que Vos apresentou Melquisedec". É o suficiente para indicar que esses sacrifícios foram imagens do sacrifício da Missa.

     Na santa Missa, são realizados não somente todos os sacrifícios simbólicos, como também se representam os principais mistérios da vida e da paixão do nosso divino Salvador.

     David o indica, quando diz: "O Senhor deixou uma lembrança de suas maravilhas; mostrou-se misterioso e compassivo" (Sl. 110, 4). E para que lhe compreendêssemos bem o pensamento, diz, em outra parte: "Acercar-me-ei de vosso altar, a fim de ouvir a voz de vossos louvores e narrar vossas maravilhas". Neste sentido, Jesus Cristo disse também a seus apóstolos, depois da instituição da Eucaristia: "Fazei isto em memória de mim. A obra da redenção vai ser cumprida. Estou prestes a deixar-vos, porém antes de tornar ao meu Pai celeste, instituo a santa Missa como sacrifício único do novo Testamento e lego-vos o poder de efetuá-la a meu exemplo, até que eu volte para julgar os vivos e os mortos. E, para que minha lembrança permaneça viva, encerro neste sacrifício todos os mistérios de minha paixão, que reproduzireis, sem cessar, aos olhos de meus fiéis".

     Primeiramente, renova-se na santa Missa o mistério da Encarnação. Na hora da Encarnação, a Virgem obedientíssima ofereceu a Deus o seu corpo e a sua alma a fim de que, segundo as palavras do Arcanjo, o Espírito Santo operasse em suas castas e virginais entranhas a concepção de Jesus Salvador.

     De modo mui parecido, quando o sacerdote apresenta e oferece a Deus o pão e o vinho, o Espírito Santo muda-os no verdadeiro Corpo e Sangue de Jesus Cristo. O sacerdote, no momento da transubstanciação, recebe o filho de Deus em suas mãos tão realmente como a santíssima Virgem o recebeu no seu casto seio.

     Analogamente, em segundo lugar, vemos renovar-se, na Missa, o mistério da Natividade. Como Jesus Cristo nasceu do corpo imaculado e inviolado da santíssima Virgem, na Missa Ele nasce dos lábios do sacerdote. Apenas pronunciada a última palavra da consagração, Jesus acha-se nos panos alvíssimos do altar como outrora nas fachas do presépio. Como Maria Santíssima, em sua indizível felicidade, adorava a seu filho Deus humanado, como o apresentava aos pastores, assim o sacerdote adora Jesus e apresenta-o aos fiéis na elevação da santa Missa. E aquele infante divino que os três magos vieram adorar, que o velho Simeão tomou nos braços quando os pais o ofereceram no templo, nos o temos diante dos olhos, em todas as Missas a que assistimos.

     E ainda há mais. Jesus nos anuncia, na santa Missa, seu Evangelho pela boca do sacerdote, nos ensina a orar, ora conosco e por nós; soam, na Missa, as palavras do perdão como no Calvário: "Pai, perdoai-lhes". Não resta dúvida, cabem aqui as palavras de Jesus: "Bem aventurados os que não viram, mas creram", pois, aos olhos corporais permanece tudo isso escondido, mas não assim à nossa alma esclarecida pela fé. Ela reconhece, como o apóstolo Tomé, a Jesus debaixo das espécies do pão; inundada de santa alegria percebe a realização da divina promessa: "Eis que estou convosco até a consumação dos séculos". Está conosco Jesus na santa Missa, está conosco como nosso Salvador, nosso Mediador, nossa vítima. Daí se compreende também uma diferença notável entre a hóstia sagrada da custódia e a da Missa, se bem que, numa e noutra, Jesus Cristo esteja igualmente presente. Na custódia ou na âmbula, permanece Jesus presente em nossos altares, oferece-se às nossas adorações, dá-nos a bênção, serve-nos de alimento, - na santa Missa, porém, é nossa vítima, nosso Mediador como no Calvário.

     Cristãos! Que meio fácil e eficacíssimo de, na santa Missa, nutrirmos a fé, a esperança, o amor! Que ocasião de acendermos nossa piedade, de estreitarmos a união sagrada com Jesus!

     Pode haver graça ou favor necessário, que não nos seja possível obter pelo sacrifício da santa Missa?

     Se Jesus nos ensina a pedir, dizendo: "Pedi, e recebereis!" vale este conselho, muito especial e particularmente, na hora da santa Missa. Nos capítulos seguintes haveremos de explicar, mais minuciosamente, tudo isso. Mas, desde já, será permitido perguntar, se não causa perda irreparável de benefícios preciosos, corporais e espirituais, aos cristãos a cegueira de fazer tão pouco caso de tão rico tesouro? Possa a leitura atenta disso e de quanto segue, esclarecer-nos e inspirar-nos grande estima do santíssimo sacrifício da Missa.

 

IV. NA SANTA MISSA, JESUS CRISTO RENOVA SUA ENCARNAÇÃO

 

     No capítulo precedente, tratamos sucintamente dos mistérios da santa Missa. Meditemo-los agora, uns após outros, começando pela encarnação.

     Foi um inestimável benefício da divina Misericórdia, que, para nossa salvação, o Verbo descesse do céu e, pela operação do Espírito Santo, se fizesse carne no seio imaculado de Maria Santíssima. Este mistério incompreensível, o sacerdote adora-o de joelhos nas palavras do Credo: "Et incarnatus est".

     Ora, Jesus Cristo não se contentou com fazer-se homem somente uma vez, antes inventou, em sua infinita sabedoria, o meio de renovar, incessantemente, a satisfação oferecida ao Pai e ao Espírito Santo pela sua primeira encarnação: instituiu a santa Missa.

     A encarnação na Missa é mística, porém real. A santa Igreja dá este testemunho nas orações da Missa da 9ª dominga depois de Pentecostes dizendo por que todas as vezes que se oferece este sacrifício comemorativo, renova-se a obra de nossa redenção.

     Considerando estas maravilhas, Santo Agostinho exclama: "Oh! sublime dignidade do sacerdote, em cujas mãos Jesus Cristo se encarna de novo. Oh! celeste mistério operado, tão maravilhosamente, pelo Padre, pelo Filho e pelo Espírito Santo, por intermédio do sacerdote!" (Homil. 2. in Os. 37).

     Oh! dignidade dos fiéis, acrescentamos, pela salvação dos quais Jesus Cristo se faz carne, de maneira mística, diariamente! Que consolação, para nós, homens miseráveis, de sermos amados tão ternamente pelo nosso Deus!

     "A Imitação de Cisto" diz: "Quando celebrares ou assistires à santa Missa, este mistério deve parecer-te tão grande, tão novo como se, nesse dia, Jesus, descendo pela primeira vez ao seio da Virgem, se fizesse homem" (Livro 4, cap. 2).

     Vejamos agora como e por quantos milagres, Jesus Cristo renova sua encarnação sobre o altar.

     É de fé que o sacerdote, antes da consagração, tem somente entre as mãos o pão, ao passo que, no momento de pronunciar a última palavra da consagração, esse pão, pela onipotência divina, torna-se o verdadeiro Corpo de Jesus Cristo. A esse Corpo está unido, por concomitância, o precioso Sangue, pois um corpo vivo não pode estar privado de sangue.

     Não é o maior dos milagres esta transubstanciação do pão e do vinho? Não é a maravilha das maravilhas que não haja mais nem pão nem vinho, apesar de ficarem as aparências, visto que a santa Hóstia e o precioso sangue conservam a forma, a cor, o gosto, que tinham antes da transubstanciação? Não é o prodígio dos prodígios que as espécies subsistem sem aderir a cousa alguma e são conservadas sobrenaturalmente?

     Santa Gertrudes aprofundava-se nestes prodígios. Um dia, enquanto se pronunciavam as palavras da consagração, disse a Deus: "Senhor, o mistério que operais agora é tão grande e tão espantoso, que, neste grau de baixeza em que estou, não ousarei levantar os olhos; abater-me-ei e colocar-me-ei na mais profunda humildade, esperando que me cedais uma parte do Sacrifício que dá a vida a todos os eleitos".

     Jesus Cristo replicou-lhe: "Se dispuseres tua vontade a sofrer, voluntariamente, toda a sorte de trabalhos e penas, para que este Sacrifício, que é salutar a todos os cristãos, vivos e mortos, se cumpra plenamente e em toda excelência, terás contribuído segundo tuas forças, para o fim de minha obra" (Der heiligen Jungfrau Gertrudis Leben und Offenbarungen, t. 1, p. 174).

     A exemplo de Santa Gertrudes, considera, durante a elevação, o grande milagre que Deus opera sobre o altar. Excita em ti o ardente desejo de que este Sacrifício contribua para a maior glória de Deus e a salvação de teus irmãos. Nesta intenção, repete com Santa Gertrudes: "Dulcíssimo Jesus, a obra que ides efetuar agora, é tão excelente que, em minha humilhação, não ouso contemplá-la; por isso, abismando-me em meu nada, espero também, para mim, alguma parte, visto que esta imolação será proveitosa a todos os eleitos. Oh! meu Jesus, se eu pudesse cooperar para ela, empregaria todas as minhas forças, não me espantariam as maiores penas, a fim de que este Sacrifício pudesse totalmente aproveitar aos vivos e aos mortos. Suplico-vos, bom Jesus, que concedais ao celebrante e aos assistentes todas as graças necessárias para este fim".

     Consideremos a imensidade do poder consagrador que Jesus Cristo concedeu aos seus sacerdotes. O bem-aventurado Alano fala dele deste modo: "A onipotência de Deus Padre é tão grande que criou do nada o céu e a terra; mas o poder do sacerdote é tal que produz o Filho de Deus na Eucaristia e no santo Sacrifício" (Alanus de Rupe, part. 4, c. 37). Deus provou que "amou tanto ao mundo, que lhe deu o Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna", primeiramente, quando enviou seu Filho à terra, e torna a prová-lo, cada dia, fazendo de novo descer o Verbo para renovar sua encarnação na santa Missa. Pela encarnação no seio de Nossa Senhora, Jesus Cristo adquiriu imensos tesouros de graças; pela santa Missa, distribui esses tesouros a todos os que celebram, ou assistem ao santo Sacrifício.

 

V. NA SANTA MISSA, JESUS CRISTO RENOVA SEU NASCIMENTO

 

     "Neste dia a suavidade correrá das montanhas e as colinas destilarão leite e mel".

     É assim que a Igreja canta, por toda a terra, o doce mistério do nascimento de Cristo. Efetivamente no dia de Natal, aquele que é mais doce do que o mel, aquele que é a própria fonte de toda doçura, tudo suavizou, trouxe a verdadeira alegria, anunciou a paz aos homens de boa vontade, e consolou o mundo com a aurora de um futuro cheio de graças.

     Que privilégio para os homens, poderem ver com os olhos corporais o mais belo dos filhos dos homens, apertá-lo nos braços, cobri-lo de santos beijos!

     Certamente, felicidade deles era grande, mas a nossa é ainda maior, contemplando, com os olhos da fé, cada dia, o divino Menino, e participando, sem cessar, da alegria do seu nascimento. Sobre este assunto o santo Papa Leão I escreveu: "As palavras do Evangelho e as profecias nos inflamam de tal modo, que o nascimento do Cristo não nos parece um fato passado, porém um acontecimento presente. Também ouvimos a boa nova trazida aos pastores pelos Anjos: "Eis que vos anuncio uma grande alegria: hoje nasceu o Salvador" (Sermo 9, de Nativitate).

     Temos a inefável felicidade de assistir a este bem-aventurado nascimento, se assistimos à santa Missa, onde tal é renovado e continuado.

     E, se queres saber, caro leitor, como o Cristo nasce, lê essa passagem de São Jerônimo: "Os sacerdotes formam o Cristo pelos seus lábios consagrados", quer dizer: o Cristo nasce dos lábios do sacerdote, quando este pronuncia as palavras da consagração. Por sua vez, o Papa Gregório XIII o afirma, exortando os sacerdotes a dizerem antes de subirem no altar: "Quero celebrar a santa Missa e formar o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo".

     A Igreja não cessa de recordar-nos este nascimento espiritual de Jesus Cristo, quando nos ordena entoar o cântico dos Anjos durante a santa Missa: "Glória a Deus no mais alto dos céus e paz sobre a terra aos homens de boa vontade". Que felicidade para nossa alma possuir uma fé viva, e nosso proceder para o Menino Jesus se assemelhar ao porte cheio de amor e de respeito de Maria, de S. José, dos Anjos e dos pastores!

     Bem que Jesus Cristo nos oculte a beleza de sua Humanidade, contudo permanece visível aos olhos de Deus e do exército celeste. Em cada Missa, mostra-se num esplendor do qual a Santíssima Trindade recebe uma glória infinita e faz estremecer de júbilo a Santíssima Virgem, os Anjos e os Santos, como nos assegurou o bem-aventurado Alano de la Roche.

     Quando os Anjos vêem o Menino Jesus nascer sobre o altar, ajoelham-se humildemente e o adoram, porque, quando Deus introduziu seu Unigênito na terra, disse: "Que todos os Anjos o adorem". É o que a Igreja canta no prefácio: "Os Anjos louvam a vossa Majestade, as Dominações a adoram, as Potestades a veneram tremendo; os céus, as Virtudes dos céus, e os bem-aventurados Serafins celebram a vossa glória com transporte de alegria".

     Em união com estes espíritos celestes, agradeçamos a Nosso Senhor que, ao renovar o mistério de seu nascimento, deseja distribuir-nos também os frutos.

     O espírito humano é impotente para conceber e explicar o grau de alegria que o céu experimenta na renovação do nascimento de Cristo. A própria ciência dos Anjos não basta, embora essas bem-aventuradas inteligências participem das delícias que proporciona ao céu o santo Sacrifício da Missa.

     Quanto ao gozo da Santíssima Trindade, a fé nos ensina que tira de Si própria toda a beatitude. A Sagrada Escritura diz da sabedoria incriada, isto é, do Filho de Deus: "É o esplendor da luz eterna, o espelho sem mancha da Majestade divina, a imagem da sua bondade" (Sab. 7, 26).

     Este espelho está desde toda a eternidade, diante dos olhos do Pai celeste que se contempla nele com infinita satisfação. Nele, vê-se eternamente o Senhor poderosíssimo, gloriosíssimo, sapientíssimo, riquíssimo, infinito de bondade e beleza.

     Este conhecimento e esta contemplação incessante de sua própria pessoa são, para Ele, um gozo essencial, perfeito, bastando para manter o Pai celeste em uma beatitude infinita.

     Este espelho puríssimo, pois, foi colocado, em nova forma, diante de seus olhos no nascimento do Salvador, onde o Cristo é revestido da mais nobre natureza humana, enriquecida das mais preciosas virtudes e ornada de todas as perfeições. O Pai eterno experimentou novas delícias, das quais fez participar toda a corte celeste. Palpitantes de júbilo estes espíritos bem-aventurados cantaram então um cântico melodioso, ao qual nada do que na terra se tinha ouvido era comparável, e derramou sobre os piedosos pastores as ondas de uma alegria inigualável e desconhecida. Ao canto do "Glória in excelsis", os Anjos voaram para Belém, prostraram-se ante o recém-nascido e adoraram-lhe a Divindade.

     Todas estas cenas da noite de Natal se renovam cada dia na santa Missa, onde o Filho de Deus nasce da palavra do sacerdote. Não que um novo Cristo seja criado, nem sua pessoa multiplicada. O que se multiplica é sua presença, de modo que, onde sua Humanidade não estava dantes, acha-se agora de modo real, e fica debaixo das santas espécies, por tanto tempo quanto estas aparências subsistirem intactas. Se as espécies se corrompem, cessa a presença real.

     O Filho unigênito de Deus nasce de novo dos lábios do sacerdote, e, por suas mãos, esse espelho imaculado ornado de tantas perfeições, é elevado para ser oferecido a Deus; que alegria, que delícias, que infinitas felicidades para o Pai celeste! Não podem ser menores que as da noite de Natal, porque, em Belém e sobre o altar, tem, diante dos olhos, aquele do qual disse: "Este é o meu Filho muito amado, em quem tenho posto toda a minha complacência" (Mt. 3, 17). A única diferença é que no presépio, o Verbo estava oculto sobre a carne mortal, enquanto, na Missa, seu Corpo glorioso, ornado de suas chagas sagradas, como cinco pedras preciosas, está oculto sob as espécies sacramentais. Em Belém, nasceu corporalmente, no altar, nasce de forma mística, ainda que muito real.

     Porém, Deus Padre não fica somente cheio de alegria, contemplando este espelho divino; aquele a quem contempla, seu Filho unigênito, lhe corresponde a ternura por um amor infinito, aumentando-lhe, assim a felicidade.

     As delícias que a Divindade recebe da santíssima Humanidade de Cristo, excedem todas as que lhe vêm dos louvores dos Anjos, adorações dos Santos, e fidelidade dos homens, porquanto a Humanidade sagrada de Nosso Senhor, unida hipostaticamente à Divindade é a única capaz de honrar, de regozijar, de amar a Divindade conforme sua infinita grandeza. Ora, tudo isto o Salvador Jesus faz com tanta suavidade que nem os Querubins nem os Serafins o compreendem inteiramente. O céu olha cheio de assombro, de coração arrebatado, sem poder medir a extensão do divino júbilo. Como isto se reproduz em milhares de Missas, quem poderia descrever o grau de felicidade que reverte à Santíssima Trindade?

     Ó Deus de glória, regozijo-me por vossa infinita felicidade, quereria mesmo aumentá-la por minha piedade, durante o santo Sacrifício. Suplico-Vos, meu Senhor Jesus Cristo, que Vos digneis, em cada Missa, de regozijar a bem-aventurada Trindade, em meu nome, e suprir, superabundantemente, o amor que tenho negligenciado de lhe manifestar, e a alegria que deveria causar-lhe.

     "Um pequenino nos nasceu, e um filho nos foi dado" (Is. 9, 6). Esta profecia de Isaias que anunciava o nascimento de Jesus Cristo, deve-se aplicar também à santa Missa. Nela uma criancinha nos é nascida, e um filho nos é dado. Ó rico e piedoso dom! Este menino é o Filho de Deus. Chega de um país longínquo, do paraíso celeste; traz-nos incomparáveis riquezas, a graça, a divina misericórdia, o perdão de nossos pecados, a remissão das penas, a emenda de vida, o benefício de uma morte, o acréscimo da glória futura, bênçãos temporais, um preservativo eficaz contra o pecado.

     O texto de Isaías encerra um outro assunto de consolação. O profeta diz, expressamente, que "nasceu-nos um menino, e nos foi dado um filho". Isto significa que, nascendo de novo na consagração Jesus se torna nossa propriedade com tudo o que é, tudo o que tem, tudo o que opera sobre o altar. Portanto, a honra, as ações de graças, as satisfações que oferece à Santíssima Trindade são para nós. Que maior consolação para os que ouvem a santa Missa do que este pensamento: Jesus está para mim!?

     Se tivesses estado durante a noite de Natal na gruta de Belém, tomado o doce Menino Jesus em teus braços, e o tivesses oferecido a seu Pai celeste, elevando-o para Ele e suplicando-Lhe que tivesse piedade de ti por amor desse pequenino, pensas que Deus pudesse repelir-te e ficar surdo a tua voz? Não, certamente. Faze, pois, o mesmo durante a Missa, sobretudo no tempo do Advento e do Natal, encaminha-te em espírito para o altar, toma o Menino Jesus, oferece-o a Deus Padre.

     Outro ponto importantíssimo é este: O Cristo não somente nasce sobre o altar de maneira mística, mas também toma uma forma tão humilde, que causa admiração ao céu e à terra. Em seu primeiro nascimento, humilhara-se infinitamente, tomando a forma de servo, entretanto, ainda era uma forma humana. Em seu nascimento místico, escolheu humilhação ainda maior, aniquilou-se debaixo das aparências do pão!

     Que humilhação inaudita! Que há de mais insignificante que uma espécie sacramental, acidente sem substância? Olhai bem a suprema modéstia de Jesus! Onde lhe está a glória? Onde lhe está a Majestade soberana que faz tremer o céu? Renunciou a tudo isto! Aquele que ocupa um trono à direita do Pai eterno, repousa sobre o altar, ligado como o Cordeiro de sacrifício. Ó abismo insondável de humildade! Ó amor incomparável do mais fiel, do mais amante dos homens.

     Para que este excesso de humildade? Uma das razões principais é desarmar a cólera de seu Pai celeste, e desviar dos pecadores um justo castigo.

     Não há melhor meio de aplacar o inimigo do que se humilhar em sua presença e pedir-lhe perdão. O proceder de Acab fornece-nos uma prova. Quando o profeta Elias anunciou a este rei ímpio que o Senhor o puniria de morte súbita assim como a sua mulher e a seus filhos, e que seus corpos, privados de sepultura, seriam devorados pelos cães e corvos, "humilhou-se Acab ante o Senhor, rasgou as vestes, cobriu a carne com um cilício, jejuou, dormiu num saco e caminhou cabisbaixo". Então o Senhor dirigiu a palavra a Elias e disse: "Não viste Acab humilhado diante de mim? Já que se humilhou por minha causa, não farei cair sobre ele os males de que o ameacei" (III Reis, 21, 27-29).

     Se Acab, "ao qual nunca houve igual em impiedade", segundo a Sagrada Escritura, por sua humilhação, levou Deus Todo-Poderoso a suspender a sentença pronunciada contra ele, o que não obterá junto a Deus a humilhação de Jesus Cristo sobre o altar? Não é mais tocante neste estado de aniquilamento em que o colocou seu amor pelos homens? Vede-o, despojado de suas vestes de gala, oculto sob a aparência da Santa Hóstia não somente curva a cabeça, está atado como holocausto e, do fundo do coração, pede para nós perdão e misericórdia! A este espetáculo, Deus diz a seus Anjos, como outrora dissera a Elias: "Vistes como meu Filho se humilhou diante de mim?". Os Anjos respondem: "Sim, Senhor, vimo-lo, e ficamos admirados". E o Pai celeste continua: "Pois que meu Filho aniquilou-se deste modo, não me vingarei dos pecadores, nem os punirei conforme suas iniqüidades".

     Meditemos estas palavras e estejamos persuadidos de que, se Deus não abrevia a vida do culpado, se não o castiga segundo a medida de suas iniqüidades, o pecador deve-o à santa Missa, onde participou da reparação de Jesus Cristo. O Salvador clementíssimo advogou-lhe a causa, humilhou-se em seu lugar e deteve o braço vingador da divina justiça.

 

VI. NA SANTA MISSA, JESUS CRISTO RENOVA SUA VIDA

 

     Entre as coisas que encantam os sentidos, o teatro deve ser colocado em primeiro lugar.

     Os homens acham-lhe tal prazer que gastam, para assistir às representações teatrais, muito tempo e muito dinheiro.

     Se quiséssemos considerar, atentamente, os grandes mistérios da Missa e persuadir-nos que Jesus Cristo se aproxima do altar como ornado de suas vestes de festa, para aí reproduzir, à nossa vista, as cenas de sua vida maravilhosa, correríamos para a igreja ao primeiro toque do sino.

     Mas, oh! loucura do mundo, quantos preferem jogar os bens aos comediantes a assistir à santa Missa, onde riquíssima recompensa é concedida a todo e qualquer espectador piedoso!

     Responder-me-ás, talvez, caro leitor: "Não é de admirar que as pessoas frívolas prefiram assistir à comédia; querem distrair-se, e, na santa Missa, nada lhes encanta os olhos e os ouvidos".

     Oh triste cegueira! Se essas pessoas superficiais tivessem os olhos da fé, gozariam da santa Missa profundamente, porque é o resumo da vida do Salvador e a reprodução de todos os seus mistérios. Não é somente uma representação poética de fatos passados, como seria um drama; é uma repetição verídica do que Jesus Cristo fez e sofreu sobre a terra.

     Com efeito, na santa Missa, temos diante de nós o divino Menino, envolto em panos, como o acharam os pastores, qual os Magos vieram adorar, e qual Maria Santíssima colocou nos braços do velho Simeão. O mesmo divino Infante repousa sobre o altar e espera nossas homenagens e nosso amor. Ao Evangelho, esse mesmo Jesus repete-nos sua doutrina pela boca do sacerdote, com o mesmo proveito para a alma crente, que se lhe viesse dos próprios lábios.

     Vemo-lo fazer um milagre maior que o de Caná, porque é mais admirável mudar o vinho em sangue, do que a água em vinho. É a renovação da última Ceia e de sua morte na Cruz. As mãos dos algozes não o atingem, porém as do sacerdote oferecem-no, como vítima expiatória, ao eterno Pai.

     Aquele que sabe tirar proveito da santa Missa, pode receber dela o perdão dos seus pecados e a abundância das graças celestes.

     "Toda a vida de Cristo, diz S. Dionísio, o Cartucho, não foi mais do que uma Missa solene, em que foi Ele o templo, o altar, o sacerdote e a vítima" (Vida sacerdotum, Antwerpiae, Vostermann, 1751).

     Na verdade, Jesus Cristo revestiu-se das vestes sacerdotais no santuário do seio materno, onde nos tomou a carne e com ela a vestimenta da nossa mortalidade. Saiu desse santuário na noite sagrada do Natal e começou o "Introito", entrando no mundo. Entoou o "Kyrie eleison", lançando os primeiros vagidos no presépio; o "Glória in excelsis" foi entoado pelos Anjos, quando apareceram aos pastores, e, convidando-os a misturar seus louvores com os deles, conduziram-nos ao berço do recém-nascido.

     Jesus disse a "Coleta" em suas vigílias noturnas, onde implorava a misericórdia divina para nós. Leu a "Epístola", quando explicava Moisés e os profetas, demonstrando que os tempos eram findos. Anunciou o "Evangelho", quando percorria a Judéia a pregar a boa nova. Fez o "Ofertório", quando, no mistério da apresentação, ofereceu-se a seu Pai pela salvação do mundo. Cantou o "Prefácio", louvando, por nós, a Deus sem cessar e agradecendo-lhe os benefícios.

     O "Sanctus" foi entoado pelos hebreus, no dia de Ramos, quando, na entrada de Jesus em Jerusalém, clamavam: "Bendito seja aquele que vem em nome do Senhor! Hosana ao Filho de David!"

     A "Consagração", o Salvador efetuou-a na última Ceia, pela transformação do pão e do vinho em seu Corpo e em seu Sangue.

     A "Elevação" realizou-se, quando foi pregado na Cruz, elevado nos ares e exposto em espetáculo aos olhos do mundo. O "Pater Noster", Jesus o disse na Cruz, pronunciando as sete palavras. A "fração da Hóstia" cumpriu-se, quando sua alma santíssima separou-se de seu corpo adorável. O "Agnus Dei", o centurião o disse no momento em que exclamou: "Verdadeiramente, este homem é o Filho de Deus!". A santa "Comunhão" foi o embalsamamento e a sepultura. A "bênção" no fim, Jesus a deu no monte das oliveiras, estendendo as mãos sobre os discípulos na ocasião da ascensão.

     Eis a Missa solene celebrada por Jesus Cristo sobre a terra!

     Ordenou que seus apóstolos e, depois deles, todos os sacerdotes, dissessem esta Missa, cada dia, ainda que mais resumida.

     Somos, pois, tão favorecidos, e talvez mais do que os que viveram no tempo de Jesus. Eles ouviram uma única Missa, cujas partes foram celebradas em longos intervalos, enquanto nós podemos, cada dia, assistir a muitas e recolher, em pouco tempo, os frutos de toda a vida do Salvador.

     Caro leitor, repassa, muitas vezes em teu espírito, a utilidade do santo Sacrifício da Missa, onde Jesus Cristo te faz participar dos méritos infinitos de sua santíssima vida e de sua paixão. Se fosse tão fácil adquirir bens temporais, não perderíamos um instante e não pouparíamos trabalho. Como, pois, somos tão pouco diligentes, quando se trata das riquezas eternas e dos tesouros que nem a ferrugem nem os ladrões podem nos arrebatar?

 

VII. NA SANTA MISSA, JESUS CRISTO RENOVA A SUA ORAÇÃO

 

     "Temos, por advogado, junto ao Pai, Jesus Cristo, que é justo e santo; porque é a vítima de propalação por nossos pecados" (I Jo., 2, 1).

     De certo é consoladora garantia de nossa Salvação, termos por advogado o próprio Filho de Deus, o Juiz dos vivos e dos mortos! Mas onde e quando Jesus Cristo desempenhou este ofício?

     A Igreja ensina ser Ele nosso advogado não somente no céu, mas também na terra.

     Eis a doutrina de Suarez: "Cada vez que o santo Sacrifício da Missa é oferecido, Jesus Cristo intercede por quem o oferece e também pelas pessoas em cuja intenção é oferecido" (Tom. 3, disp. 79, sect. 21).

     S. Lourenço Justiniano descreve assim a maneira de orar de Nosso Senhor: "Enquanto o Cristo é imolado sobre o altar, clama a seu Pai e mostra-lhe suas chagas para preservar os homens da condenação eterna".

     Este zelo do Sagrado Coração pela nossa salvação foi indicado por Lucas: "Jesus subiu ao monte para fazer oração, onde passou a noite, orando a Deus".

     E noutro lugar: "De dia, ensinava no templo, e de noite, retirava-se à montanha, chamada das Oliveiras". Ou então: "Foi segundo seu costume, ao monte das Oliveiras, para nele orar".

     Isto diz, claramente, que Jesus tinha o costume de passar a noite em oração. Durante sua peregrinação, cada um de seus atos era acompanhado da oração; no término desta santa vida, o adeus aos discípulos foi a oração suprema do Sumo Sacerdote por excelência; suspenso na Cruz, orava por seus inimigos e, quando chegou o momento de voltar ao Pai celeste, levantou a mão sobre os discípulos, em uma última bênção, e subiu ao céu, onde seu Coração continua a interceder pelo gênero humano.

     Ora, na santa Missa, Jesus dirige a seu Pai todas estas orações reunidas; mostra-Lhe as lágrimas, os gemidos que as acompanharam; enumera as noites passadas em jejum e oração; oferece todos esses méritos pela salvação do mundo, particularmente por cada um dos que assistem à Missa. Ó Deus, que eficaz oração! Como o perfume do incenso, eleva-se para o Pai celeste, para o trono da Santíssima Trindade! Jesus Cristo não ora somente, imola-se também pela salvação do mundo.

     Santa Gertrudes explica este mistério do seguinte modo: "Vi, na elevação, Nosso Senhor erguer, com as próprias mãos e sob a forma de um cálice, o dulcíssimo Coração que apresentou a seu Pai. Imolou-se então em favor de sua Igreja, de maneira incompreensível à criatura". Jesus isto confirmou, quando disse a Santa Matilde: "Eu somente sei e compreendo, perfeitamente, como me ofereço cada dia a meu Pai pela salvação dos fiéis; nem os Querubins nem os Serafins nem as Potestades podem concebe-lo inteiramente".

     Notai que Nosso Senhor não se oferece na santa Missa com a majestade que tem no céu, porém em uma incomparável humilhação. Do abismo de sua humildade, a voz eleva-se-lhe tão poderosa para o céu que traspassa as nuvens e atinge o trono da misericórdia.

     Quando o rei de Nínive teve conhecimento dos castigos que ameaçavam a cidade no prazo de quarenta dias, levantou-se do trono, despiu as vestes reais, cobriu-se de roupas de luto, deitou cinza sobre a cabeça e pediu a todo o povo que implorasse a misericórdia divina.

     Por esta humildade e esta penitência, o rei pagão obteve perdão para si e para a cidade culpada.

     Que não obterá Jesus Cristo, que se humilha muito mais na santa Missa, em que, deixando o trono de sua glória, reveste as pobres aparências do pão e do vinho e clama ao Deus de misericórdia: "Graça e perdão para meu povo! Meu Pai, considera minha abjeção; eis-me aqui diante de Vós, não como um homem, mas semelhante a um verme da terra. Os pecadores levantam-se contra Vós cheios de orgulho. Eu me humilho em Vossa presença. Eles Vos irritam, eu, por meu aniquilamento, quero aplacar-Vos. Eles clamam sobre si Vossa justa vingança, eu quero desvia-La por minhas instantes súplicas. Tende piedade deles por amor de mim, meu Pai, e não os castigueis à medida de suas iniqüidades. Não os entregueis a Satanás, porque são meus, resgatei-os com o preço de meu Sangue. E, Pai Santíssimo, imploro, sobretudo, a Vossa misericórdia em favor dos pecadores aqui presentes, pelos quais renovo, durante esta Missa, minha vida e minha morte. Dignai-Vos, em virtude de meu Sangue e de minha morte, preservá-los da morte eterna".

     Oh Jesus, até onde vos arrasta o amor para conosco e por que meio poderíamos melhor corresponde-lo senão assistindo, cheios de piedade, à santa Missa?

     Quando o divino Salvador se achou suspenso na Cruz, recomendou a seu Pai os fiéis que estavam no pé da árvore da Salvação e lhes aplicou, mui especialmente, os preciosos frutos. Do mesmo modo, ora pelos assistentes, principalmente pelos que recorrem à sua mediação. Ora por eles tão ardentemente, como o fez no momento de sua morte, pelos seus inimigos.

     Oh poderosa oração! Quanto não fortifica a esperança da vida eterna, vermos o mesmo Filho de Deus tomar nas mãos os interesses de nossa salvação!

     Se a Santíssima Virgem te aparecesse e dissesse: "Não temas, meu filho, prometo-te encarregar-me de teus interesses; pedirei, instantemente, a meu Filho, Jesus Cristo, e não cessarei de pedir até que Ele me assegure tua felicidade eterna", a tua alma não ficaria transportada de júbilo e não exclamaria: "Agora estou consolado, não tenho que duvidar, minha salvação está segura"?

     Se temos, pois, uma tão grande confiança na intercessão de Maria Santíssima, por quê esta confiança não será absoluta, quando se trata da intercessão de seu divino Filho, que não promete somente o socorro, mas ora por nós em cada Missa que ouvimos, e faz, por assim dizer, violência à Justiça de Deus, para nos poupar o castigo merecido?

     E não era somente. Com ele intercedem, como outras tantas vozes, suas lágrimas, suas chagas, seu sangue, todos os seus suspiros de amor. Quem poderá medir o efeito dessas súplicas sobre o coração do Pai celeste?

     Muitas vezes te lastimas da falta de fervor em tuas orações. Na santa Missa, Jesus Cristo orará contigo e suprirá a imperfeição de tua oração. Escuta como convida a todos afetuosamente:

     "Vinde a mim vós que sofreis e vos achais em tribulações" (Mt. 11, 28); isto é: vós todos que não podeis orar com ardor, vinde a mim e orarei por vós. Por quê, alma aflita e atribulada, não te rendes a este tão terno convite? Por que não corres à santa Missa?

     Em tuas tribulações recorres a amigos para pedir-lhes uma oração. Que é, todavia, a oração dos homens comparada com a oração e intercessão de Jesus Cristo? Tua miséria é extrema, o perigo de tua condenação, iminente. Dize, pois, a Jesus: "Senhor, quem poderá salvar-se?" e Ele responder-te-á: "O que é impossível aos homens é fácil a Deus".

     Recorre, pois, a este Deus Salvador que quer te assegurar uma morada na casa de seu Pai.

     "Como?, talvez digas, um pobre indigente como eu, pode reclamar as orações do Filho de Deus? Sou indigno disso, e não o ousarei". - oh, não fales deste modo! Convence-te que um só de teus suspiros te dá todo o poder sobre seu Coração. São Paulo o afirma: "O pontífice que temos, não é tal que não possa compadecer-se de nossas fraquezas, porque todo o pontífice é tomado dentre os homens e é estabelecido para os homens no que diz respeito ao culto de Deus, para que ofereça dons e sacrifícios pelos pecados".

     Jesus Cristo é pontífice, exerce o sacerdócio na santa Missa, sua missão é, portanto, orar pelo povo e oferecer o sacrifício por ele; e não se desobriga desta missão por todos em geral, mas por cada um em particular; assim como sofreu por todos e por cada um, assim se interessa por cada alma de tal sorte, como se fosse a única a salvar.

     Eis o zelo, o poder da oração de Jesus no santo altar. Juntemos-lhe nossas pobres súplicas e elas se tornarão excelentes. "As orações feitas em união com o Santo Sacrifício da Missa, disse o bispo Fornero de Hebron, são mais poderosas que todas as outras, mesmo do que as que duram longas horas, e até as orações extáticas, por causa da paixão e morte do Senhor que lhe manifestam a eficácia na santa Missa, por uma admirável efusão de graças. Porque, como a cabeça ultrapassa, em dignidade, todas as outras partes do corpo, assim a oração de Jesus Cristo, que é nossa cabeça, ultrapassa as orações de todos os cristãos, que são os membros de seu corpo místico.

     Uma moeda de cobre torna-se preciosa, se é lançada no ouro em fusão; a pobre oração do homem, unida à de seu Salvador, adquire um caráter de alta nobreza e pode ser ofertada como um dom agradável à divina Majestade. Deste modo, uma oração menos fervorosa, oferecida na Missa, vale mais que uma oração fervorosa feita em casa.

     Muitos se prejudicam os que, podendo assistir à santa Missa e, durante esta, ocupar-se com os exercícios de piedade que costumam fazer em casa, se afastam do santo Sacrifício. Porque, se fizessem as orações durante a santa Missa com a intenção de assisti-la e somente durante os momentos da consagração interrompessem as orações, a fim de adorar o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor, ganhariam graças e méritos muito maiores do que se rezam em seu oratório particular.

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